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A Viagem

Luiz Zanin Oricchio

30 de novembro de 2011 | 09h06

Michel Deville é um cineasta curioso. Não se pode dizer que sua longa carreira seja regular. Pelo contrário, é pontuada pela oscilação. No entanto, tem uma particular sensibilidade para a ambivalência dos sentimentos e da sexualidade. É assim em Uma Leitora muito Particular, um dos melhores papeis de Miou-Miou, e também neste A Viagem (selo Lume), no dueto muito interessante composto por Dominique Sanda e Geraldine Chaplin.

A originalidade (e também a qualidade) do filme não estão tanto na situação criada pela história – em poucas palavras, um road movie de mulheres, como Telma e Louise – mas da maneira como ela é engendrada. Há entre Hélène (Dominique) e Lucie (Geraldine) uma cumplicidade muito profunda, o que é compreensível pois são amigas desde a infância. Depois, estão insatisfeitas com os seus homens. Por fim, porque encontram na estrada uma liberdade de que já não gozavam em suas vidas.

A viagem pode ser uma doce evasão. Sai-se do cotidiano, com sua previsibilidade e suas convenções. É um espaço de invenção. E de descobertas. Mesmo para duas mulheres já feitas. Mulheres, mas, no fundo, duas meninas travessas que precisam se redescobrir, experimentar suas emoções e seus corpos.
A Viagem é um filme delicado sem deixar de ser sensual e, algumas vezes, bastante erótico. Deville revela seu conhecimento das nuances da sexualidade feminina – pelo menos até o limite onde é dado ao homem entendê-la. Se até Freud se perguntava o que desejava uma mulher por que o pobre Deville seria obrigado a nos entregar a resposta de bandeja?

De qualquer forma, A Viagem é um belo filme de alma feminina, não apenas porque seu protagonismo é todo das duas atrizes, mas porque sua sensualidade exibe aquele toque um tanto evanescente que evoca o desejo feminino – ou, pelo menos, os homens assim o supõem. Nesse sentido, é um filme bastante bonito e ousado em seu propósito.

Deville não recua diante daquilo que apenas intui – a cumplicidade e a partilha de um desejo que leva até cenas mais fortes, porém de modo algum grosseiras. Pelo contrário, são inspiradoras. Não cede jamais ao machismo que contamina tantos cineastas quando se põem a imaginar o que seja o desejo do sexo oposto.

(Caderno 2)

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