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A Via Láctea

Luiz Zanin Oricchio

03 de novembro de 2007 | 10h55

Depois de Tônica Dominante, Lina Chamie aprofunda seu cinema poético em A Via Láctea. Faz um cinema que não teme a literatura (não fosse a autora filha de um poeta famoso, Mário Chamie) e nem a poética das imagens. Isto é, a visualidade do filme ‘fala’ tanto quanto suas palavras, integração rara em cinematografia tão insípida em sua fase contemporânea como tem sido a brasileira.

Na história, há um caso de amor, e um triângulo anunciado. Marco Ricca é Heitor, um professor de literatura e escritor. Ele vive sua paixão pela atriz de teatro Júlia (Alice Braga). Mas o caso está para acabar e um tertius (Fernando Alves Pinto) entra no páreo. Heitor tem pressa em se encontrar com a amada e salvar sua história de amor. Mas está dentro de um carro, e esse carro está em São Paulo. Logo, terá de vencer a corrida de obstáculos que é dirigir num trânsito caótico para chegar ao seu destino. E aí entra o outro elemento da equação poética: a própria cidade, ambientação privilegiada também do anterior Tônica Dominante.

O que se pode dizer é que Lina integra a paisagem, com já integrara a fala e os movimentos dos personagens. O filme é um todo, com perdão do lugar-comum. Mas não é tão fácil fazer de São Paulo uma cidade poeticamente significante. O que se pode dizer, depois de ver este filme, é que isso não é impossível. E se a poesia se encontra em qualquer coisa ou pessoa, pois depende muito mais do olhar de quem vê do que da realidade vista, o mesmo se dá em relação ao ambiente onde um filme é feito.

A São Paulo de Lina Chamie não é a do cartão-postal. Mesmo porque existem poucos pontos na cidade dignos de figurar nessas lembranças decorativas. A São Paulo de A Via Láctea pode ser bela ou agressiva, dependendo da qualidade do olhar. Podemos dizer que é as duas coisas ao mesmo tempo. E nós, seus habitantes, nos estruturamos pela ambivalência profunda que é morar nesta metrópole e manter em relação a ela uma relação permanente de amor e de ódio. Essa ambigüidade, de certa forma, se duplica nos relacionamentos amorosos. Cidades e pessoas – uns são espelhos dos outros.

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