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A utopia artesanal

Luiz Zanin Oricchio

22 de dezembro de 2006 | 22h39

Este blog está em semi-recesso de Natal, mas mesmo assim não resisto à tentação de postar alguma coisa, de vez em quando. Como estou no Guarujá, e sob chuva, ajuda a passar o tempo. Bem, essa discussão aí dos posts anteriores sobre o excesso de filmes me fez pensar em algumas coisas. Primeiro, que se fosse só um problema corporativo da crítica, eu nem perderia meu tempo, e nem encheria a paciência de vocês, com um assunto desses. Detesto a egolatria e se ponho alguma coisa em discussão é porque acho, de maneira insensata ou não, que possa também interessar a outros. Portanto, acho que pode dizer respeito a quem gosta de cinema, cultura & afins, que é o nome deste blog, criado por mim em tarde pouco inspirada.

O problema, acho, é que esse excesso está prejudicando a, por assim dizer, biodiversidade no mundo do cinema. É como você ter um ecossistema superpovoado por uma espécie voraz e que tende, portanto, a se tornar hegemônica nessa ambiente. De certa forma, e mal comparando, é o que está acontecendo no mundo todo, com algumas raras exceções, como a França, Índia, Coréia e poucos outros países. No nosso, como em outros, a produção hollywoodiana é hegemônica, ou quase, deixando pouco espaço para outros filmes. Tudo cresce, mas a produção que se impõe no mercado é uma só. Isso é um perigo para a diversidade,para quem ama o cinema para valer e não apenas uma de suas vertentes.
Segundo, é que os poucos filmes de exceção, mesmo que cheguem ao circuito, acabam não tendo a repercussão que merecem. Não há tempo para assimilá-los, discuti-los, eles acabam sendo uma gota num oceano, tragados pela vertigem da produção.

Como disse um amigo do blog, isso não acontece só no cinema – é um dado geral da nossa sociedade contemporânea, opinião com a qual concordo sem nenhuma ressalva. Como mexo com livros também, constato o mesmo fenômeno no mercado editorial. Amigos me dizem que isso se passa de forma igual no mercado fonográfico e vai por aí. Nada repercute, porque nada se destaca da imensa geléia geral em que estamos mergulhados.

Voltando ao cinema. Tudo isso está acontecendo justo no momento em que as novas tecnologias permitem uma grande democratização na produção de filmes. Diferentemente do que acontecia poucos anos atrás, hoje ficou muito mais barato fazer cinema. Se você tem uma miniDV e um programa de edição como o Final Cut, pode fazer um filme em casa. Uma produção de “fundo de quintal”, por assim dizer, no melhor sentido do termo, quer dizer: artesanal. Realiza-se, pouco a pouco, a utopia sonhada pelo diretor Carlos Reichenbach, de um cinema “antiindustrial”. Fora da linha de montagem. O cinema, quase tão acessível quanto a caneta e o papel com os quais você escreve um conto ou um romance.

Num artigo do ano passado (O Globo, 12/09/05), Cacá Diegues saudava esse novo tempo dizendo que gente como ele, rapazes de classe média do Cinema Novo, havia começado a fazer filmes para falar em nome dos desfavorecidos. Cacá entende que chegou a hora desses desfavorecidos começarem a fazer seus próprios filmes. Falar em seu próprio nome. E a existência de grupos como Nós do Cinema, o Cinemaneiro, o Filmagens Periféricas, as Oficinas Kinoforum e outros fala em favor dessa tese. Sem as novas tecnologias eles existiriam, pois o processo industrial do antigo cinemão os inviabilizaria.

Então o processo começa a democratizar-se na ponta da produção, da feitura dos filmes. Mas o gargalo continua apertado na outra ponta – a da exibição. Os filmes baratos, artesanais, antiindustriais, começam a ser feitos com mais facilidade. Mas quem os vê? E a pressão do mercado, a overdose produtiva dos estúdios, aperta mais ainda esse gargalo. Esse é o nó da questão, a meu ver, e seu aspecto mais grave: nesse espaço que tende ao gigantismo, há pouco espaço para o alternativo.

Se os críticos estão trabalhando mais, isso é problema deles e que resolvam o desafio como puderem. Mas penso que há nessa questão aspectos que dizem respeito a todos os que gostam de cinema e acham que ele ocupa uma posição importante nas nossas vidas.

Abraços a todos.

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