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A Última Amante

Luiz Zanin Oricchio

29 de junho de 2008 | 10h41

Há uma tradição libertina francesa que remonta ao século 17, e muitos autores (cineastas, também) nela se inspiram. Catherine Breillat é uma delas. Esses autores, Sade, o mais notório entre eles, mas não o único, apontam para a sexualidade como transgressão. Transgressivo é seu filme mais ‘escandaloso’, tido por muita gente como pornô, Romance, cujo lançamento a trouxe ao Brasil anos atrás. A Última Amante (tradução nacional para Une Vieille Maitresse) vai nessa linha. Mas é infinitamente mais soft que o anterior.

No entanto, com toda a delicadeza, segue no mesmo sentido – o do caráter irredutível do desejo, força que move o Sol e as outras estrelas como dizia um poeta toscano. A história é tirada de um livro de Barbey d’Aurevilly, publicado em 1879. Fala de um jovem libertino, Ryno de Marigny (Fu’ad Ait Aattou), que deseja casar com uma pura flor da aristocracia, Hermangarde (Roxane Mesquida). Acontece que Ryno tem como amante a incendiária Vellini (Asia Argento) e seu coração (digamos assim), balança entre as duas.

Não se trata de uma vulgar história de amor e desejo, mas de um duelo entre tipos ideais dessa espécie de enredo. Ou quase. Hermangarde é uma loirinha insossa e Vellini, um vulcão sexual ou pelo menos assim deveria ser, caso Asia Argento se mantivesse à altura de algumas de suas interpretações anteriores; aqui, ela parece meio contida. Finalmente, há Ryno, essa leve assimetria, um rapaz com boca de mulher, e em tudo devidamente andrógino.

Talvez seja essa estranheza encravada no estereótipo sexual (seria mais previsível imaginar Ryno como machão típico), que dá ao filme uma aura diferente. E é esse rumo, sem dúvida consciente por parte da diretora, que imprime certa eletricidade à história e a salva do academicismo.

Não por completo, é verdade. Breillat conserva certo cacoete do ‘filme de época’ e de qualidade. Mas a intensidade do par central, Ryno e Vellini, desloca a atenção do espectador para o que de fato interessa. Nesses momentos – na contradança entre o ar debochado de Vellini e a ambivalência de Ryno -, o filme decola. Não fica muito tempo no ar, é verdade, mas são esses diálogos e imagens que permanecem na memória do espectador. O resto são pedaços de outros filmes que ele já viu.

(Caderno 2, 27/6/08)

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