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A tragédia de Sarriá: o falso dilema entre a beleza e a eficácia

Luiz Zanin Oricchio

06 Julho 2007 | 17h36

Ontem tive um dia tão punk aqui no jornal que nem deu tempo para escrever sobre uma importante efeméride do futebol brasileiro, a chamada “tragédia de Sarriá, que aconteceu no dia 5 de julho de 1982, exatos 25 anos atrás. Nesse dia, se passou algo em aparência banal, uma partida entre duas grandes seleções, a brasileira e a italiana. Uma venceu, outra perdeu, e foi só.

Ganharam os italianos, por 3 a 2, numa partida dramática, ao fim da qual o Brasil, favorito da Copa na Espanha, foi desclassificado. O Brasil precisava apenas do empate para avançar. A Itália saiu sempre na frente e o Brasil empatava. No terceiro gol, não conseguiu mais igualar. O herói italiano foi Paolo Rossi, que marcou três. O Brasil entrou em campo com uma formação de sonho: Waldir Perez, Leandro, Oscar, Luizinho e Júnior; Cerezo Falcão, Sócrates e Zico; Sérginho e Éder. Técnico: mestre Telê Santana.

E daí, existe alguma novidade em uma grande seleção eliminar outra? Não, mesmo porque a Itália, bicampeã, não era nenhuma galinha morta. Mas, no caso, pensava-se (e o Brasil também achava) que aquele time era imbatível. Chegara ao supra-sumo da prática do futebol-arte e era considerada a melhor seleção desde aquela, mítica, de 1970. A melhor da era pós-Pelé. Criou-se, assim, um segundo campeonato, paralelo ao primeiro – o embate do futebol-arte contra o futebol-de-resultado. A beleza contra a força bruta (com toda a simplificação que isso comporta, claro, pois a Itália não era um time de brucutus).

Antero Greco, que estava lá, conta que o título de um jornal, depois da derrota, foi: “O dia em que o futebol morreu”. Outro jornal espanhol titulou: “Perdeu o futebol”. Um colega disse a ele, na véspera do jogo: “o Brasil deve ganhar, pelo bem do futebol”. Detalhe: esse colega era italiano. Ou seja, o Brasil era uma unanimidade universal. Na época, eu morava na França e lá os jornalistas só se referiam aos brasileiros como “les magiciens”, os mágicos.

Depois da derrota chegou-se à conclusão de que aquele futebol refinado, de toque de bola, de arte e sutileza, podia ser muito bonitinho para os olhos, mas não dava resultado dentro de campo. A melhor solução para ganhar partidas e títulos era colocar um monte de fortões no meio de campo e na cabeça da área para destruir o jogo adversário. E, se fosse possível, marcar um golzinho lá na frente. O pragmatismo foi adotado como linha filosófica dominante no mundo do futebol. E assim tem sido, desde então, com as exceções de praxe como o Barcelona, o Santos de Diego & Robinho e poucos outros.

Sempre que me lembro desse jogo fatídico – e o faço com maior intensidade nessa efeméride – fico pensando se o futebol teria seguido um caminho diferente caso fosse outro o resultado naquela tarde no Sarriá, um estádio, aliás, que nem existe mais. Se, como todos esperavam, o Brasil tivesse vencido a Itália com aquele dream team e, mais adiante, conquistado a Copa de 1982, será que o futebol-arte se imporia como um modelo a ser seguido pelos anos vindouros? Teríamos muitos anos de beleza em campo, ou cedo ou tarde os brucutus terminariam por se impor, tornando a era Dunga inevitável?

Não posso me impedir também de pensar que esses pontos de inflexão (toma-se um caminho ou outro e o desfecho da história será diferente) existem também na vida da gente e na própria história das nações. Por exemplo: se a sociedade civil não tivesse sucumbido com tanta facilidade ao golpe militar de 1964 o Brasil seria esse mesmo de hoje? Sei, sei, boa parte dessa mesma sociedade civil era conivente com o golpe e com ele colaborou. Mesmo assim…