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A torcida que influi*

Luiz Zanin Oricchio

28 Fevereiro 2012 | 12h39

Sempre se soube que a torcida deve ter peso no destino de um clube. Estão aí as maiores torcidas do País para não nos deixar mentir: o que seriam de Corinthians e Flamengo sem as imensas massas que seguem esses times com fé e coração, e fanatismo?

Mas, enfim, isso pode ser dito sobre qualquer dos nossos grandes clubes de massa, Palmeiras, São Paulo, Vasco, Grêmio, Náutico, etc. São as torcidas que fazem dos times instituições tão especiais. Sem elas, nada feito. Os clubes viram agremiações como as outras, sem qualquer aura que os diferencie. O clube do coração é mais. É a nossa segunda pátria, como dizia o grande crítico de teatro Décio de Almeida Prado.

E, de certa forma, se os clubes têm responsabilidade e contas a prestar à torcida, esta também tem suas obrigações para com os seus clubes. Por exemplo, um bom torcedor apoia seu time em todas as circunstâncias, e não apenas na época das vacas gordas. Juntos na saúde e na doença, como nos melhores casamentos. O torcedor fiel comemora o título e chora o rebaixamento. Cai, mas não deixa o time na mão. Continua a incentivá-lo, seja na disputa de um Mundial ou num humilde jogo da 2.ª, 3.ª ou 4.ª divisão. Assim é, e entendo que assim deve ser a relação entre clube e torcedor, porque, repito mais uma vez, o futebol é uma atividade diferente das outras, incomparável.

Agora, será que entre as obrigações da torcida se encontra a de pagar pela contratação de jogadores? Não sei e partilho minha dúvida com vocês diante dessa iniciativa do Palmeiras de vender cotas de R$ 100 aos torcedores para trazer o volante Wesley para o clube. Acho que Wesley seria uma excelente contratação para o Palmeiras e entendo que a torcida tenha todo o interesse em vê-lo no time. Mas deve enfiar a mão no bolso para isso? E quando o Palmeiras revendê-lo vai distribuir os dividendos com os torcedores que contribuíram para a compra? Como funciona esse negócio? É uma doação, uma compra, uma parceria?

De qualquer jeito que seja, não me cheira bem. Acho que se um torcedor quiser mesmo auxiliar seu clube tem um caminho muito mais fácil para fazê-lo – associar-se. Fazer parte do quadro associativo e lutar para que o poder no seu clube seja disputado por eleições diretas, como já acontece com vários deles. É a melhor maneira de se prevenir contra o continuísmo dos cartolas, a principal praga que acomete o nosso futebol.

Por formação, não acredito muito em escolher culpados pontuais e achar que, eliminado determinado nome, todos os problemas serão resolvidos com isso. O que quero dizer é que as algumas pessoas podem ser nefastas mesmo. Mas, muito pior do que elas é a estrutura que lhes permite se eternizarem no poder. Sua arma, torcedor, é fazer parte para valer do seu clube. E, quando não estiver satisfeito com os dirigentes, votar na oposição. É a melhor forma de influir no resultado, sem ter de bancar a contratação de jogador.

* Coluna Boleiros, publicada no Caderno de Esportes do Estadão