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A torcida ainda sabe o que é bom

Luiz Zanin Oricchio

23 de março de 2010 | 09h23

A nossa é a época do tudo ou nada. Tudo preto ou tudo branco. Não existe terceira via. Nem nuances ou etapas intermediárias entre uma coisa e outra. Daí a polarização na sociedade, que você pode observar nas intolerâncias partidárias ou ideológicas. Na época global, o mundo virou tribo. Ou você está comigo ou contra mim. Ou você pertence ao meu partido, e pensa como eu, ou é meu inimigo. Preocupante, não? E se isso atinge a sociedade como um todo, por que o futebol, que dela faz parte, ficaria de fora?

Como você sabe, o tédio do começo de ano futebolístico foi quebrado pela aparição, inesperada, de um time que joga diferente dos demais. E que tem, até agora, jogado bonito, vencido seus jogos e lidera o campeonato com estilo ofensivo. Falo, é claro, do Santos Futebol Clube que, domingo último, enfiou nove gols no Ituano. Já tratei nesta coluna do encantamento que este time tem despertado, junto com o repúdio que também parece causar. O ser humano é complexo. A inveja é um sentimento que podemos combater, mas atinge a todos. Daí que considero normal certa restrição a quem se destaca; é o desejo, talvez inconsciente, de que tudo volte à “normalidade”, quer dizer, a uma saudável mediocridade. A mediocridade é a regra, e a regra detesta a exceção.

Menos normal e aceitável me parece outra coisa, e nesse ponto volto ao radicalismo mencionado do primeiro parágrafo, é cobrar da exceção que ela seja prova irrefutável de alguma coisa. Assim, para demonstrar que é mesmo bom, não bastaria ao Santos jogar bem e encantar aos amantes do jogo bonito ? ele precisaria ganhar campeonatos e mostrar que esse estilo de jogo é também o mais eficaz dentre todos. Se chegar às semifinais do Campeonato Paulista e perder, não faltará quem diga: “Eu não falei? Joga bonitinho, mas na hora agá…” Se ganhar, dirão: “Também, ganhar esse campeonato meia-boca prova o quê? Queria ver na Libertadores…” É impossível provar alguma coisa a quem já tem opinião formada.

Já, para mim, ganhando ou perdendo, nada fica provado de maneira definitiva. Por que, num mata-mata, o Corinthians, o São Paulo ou o Santo André não podem desclassificar o Santos? Podem perfeitamente, como também pode qualquer outro time que vier a ocupar uma das quatro vagas de finalistas. O futebol comporta a incerteza. Nem sempre o time que está jogando melhor vence. Ou, segundo minha hipótese favorita: há sempre mais de uma maneira de chegar ao mesmo resultado. O futebol conservador do São Paulo pode ser tão eficaz quanto o jogo inventivo do Santos. Apesar de tudo o que nos martelam na cabeça no dia a dia, continuo acreditando na existência de várias maneiras de se atingir a mesma meta. Em determinados momentos, uma pode se revelar melhor do que a outra. E nem sempre a opção mais vistosa vence. Embora seja natural torcermos por ela, em nome da beleza.

Assim como a seleção de 1982 encantou a todos e, mesmo tendo perdido, é uma das mais lembradas pela torcida, esse Santos de Ganso & Neymar, a meu ver, não precisa provar mais nada. Já vem provando a cada jogo. Não é “o” caminho para o futebol, porque existem outras alternativas e um jogo pode ser ganho na base do toque de bola ou do chuveirinho, embora a primeira alternativa seja mais elegante. A força do Santos é ter aderido ao estilo que melhor representa a invenção brasileira no trato com a bola, anterior a tudo que foi feito para descaracterizá-la, da importância excessiva da força física aos técnicos retranqueiros e a desestabilização econômica dos clubes.

O jovem time do Santos já conseguiu sua vitória: mostrar que, mesmo submetida há anos ao regime de péssimo futebol, a torcida não perdeu o paladar e ainda sabe o que é bom.

(Coluna Boleiros, 23/3/10)