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A terra devastada da cultura

Luiz Zanin Oricchio

20 de julho de 2013 | 19h32

Em A Civilização do Espetáculo – uma Radiografia do nosso tempo e da nossa Cultura, Mario Vargas Llosa expressa preocupação justificada. Quando um tubarão conservado em formol (conforme a obra de Damian Hirst) nos é apresentado como obra de arte, algo anda mal na chamada “cultura”. Os exemplos proliferam, e não apenas nas artes plásticas. Ficou difícil, senão impossível, distinguir a vanguarda da impostura, diz Llosa. E como desmenti-lo? Essas reflexões fornecem o eixo principal de A Civilização do Espetáculo.

O livro trata não apenas da degeneração das formas artísticas, mas de algo ainda mais geral – o advento de uma sociedade voltada para o entretenimento puro e simples. Essa aspiração ao leve, ao superficial, ao divertido, contaminaria não apenas as artes plásticas, mas o cinema, a literatura, e outros domínios da expressão humana, como o próprio jornalismo, com a ânsia atual de transformar a notícia num produto “vendável”, isto é, divertido. Tal seria a imposição do mercado.

Em seis capítulos e mais uma Reflexão Final, Llosa ataca esse modo de ser contemporâneo em várias frentes. A palavra “decadência” aparece citada de maneira explícita ou implícita. Dá o tom e calor ao texto, magnificamente claro e bem escrito. Não por acaso, o primeiro autor lembrado é T. S. Eliot, em especial seu ensaio, publicado em 1948, Notas para uma Definição de Cultura. Nele, Eliot afirma: “Não vejo razão alguma pela qual a decadência da cultura não possa continuar e não possamos prever um tempo, de alguma duração, que possa ser considerado desprovido de cultura”. Llosa se adianta ao próprio raciocínio e afirma, sem pestanejar, que “esse tempo é o nosso”. Autor de Waste Land, Eliot acreditava que a cultura seria patrimônio de uma elite – “É condição essencial para a preservação da qualidade da cultura de minoria que ela continue sendo uma cultura minoritária”, escreve.

Essa ideia de “elite” impregna o texto do próprio Llosa. Como se a cultura, ao transbordar os limites dos bem pensantes, tivesse se aviltado, simplificado, decaído. A ideia altruísta de que a cultura não podia continuar privilégio de poucos, degenerou, segundo ele, na massificação da ideia de cultura e, portanto, na sua neutralização. A tese, muitas vezes repetida ao longo do ensaio, é de que a cultura de verdade, a alta cultura, teria por fim levar o público a uma imersão mais completa, e complexa, na própria experiência da vida, com seus desafios, incertezas, ambiguidades. A “cultura” de entretenimento, pelo contrário, busca apaziguar, fornecer um efêmero momento de evasão, ser um bálsamo provisório para as agruras da existência. Para tanto, a “obra” atual deve ser convencional no conteúdo e redundante na forma. Daí a proliferação de toda a cultura do entretenimento, dos livros aos filmes, passando pela música e pelo jornalismo que, no entender de Llosa, constituem o ópio do povo contemporâneo – para empregar a expressão de Marx em relação à religião. Palavras que parecem justas para quem, como ele, se preocupa com a degradação da cultura contemporânea.

Não basta constatar essa decadência, é preciso fazer um diagnóstico do fenômeno. O que a causou? Quais os responsáveis? Llosa elenca uma série de desafetos, entre os quais Mikhail Bakthin, passando por Jacques Lacan, Michel Foucault, Jacques Derrida, Jean Baudrillard, pensadores diferentes, mas que podem ter, em comum, talvez, a tentativa de alargar o conceito e abrangência do termo cultura. Bakthin, por exemplo, comete o pecado original, na visão de Llosa, de escrever um livro como Cultura Popular na Idade Média e no Renascimento: o contexto de François Rabelais, no qual dá destaque à cultura popular, menos refinada, porém mais livre e criativa que a pretensiosa e artificial cultura oficial. Bakthin, diga-se, é um dos autores mais influentes na crítica literária contemporânea.

A Baudrillard reprova a transformação do mundo em simulacro, sobre o qual não teríamos interferência real. E a Foucault, que censurava por “acreditar que seria mais factível encontrar a emancipação moral e política apedrejando policiais, frequentando as saunas gays de San Francisco ou os clubes sadomasoquistas de Paris do que nas salas de aula ou nas urnas eleitorais, ainda responsabilizava por colocar entre parênteses a noção de “verdade”. De modo geral, a culpa é partilhada entre todos os integrantes do elenco rotulado de pós-modernismo, responsabilizado pela abolição de cânones, diferenças e hierarquias.

Não por acaso, Llosa faz questão de distinguir-se do pensador francês Guy Debord que, nos anos 1960, escreveu uma obra de título bem parecido ao seu – A Sociedade do Espetáculo. A descrição do fenômeno da banalização cultural é parecida – Debord falava da “futilização” que domina a sociedade moderna –, mas o diagnóstico é muito diferente. Llosa é um liberal democrata para quem o capitalismo é uma realidade inescapável e sem alternativa, ao passo que Debord achava que a crítica à sociedade do espetáculo apenas valeria como parte da crítica prática (isto é, revolucionária) do sistema que a torna possível. Embora prudentemente crítico aos desvios do capitalismo, Llosa acredita na essência do sistema. Parece saber que a banalização cultural é parte do processo contemporâneo de expansão do capital através das mídias digitais, em suas diversas plataformas. Como não pode atacar o sistema, em sua base, escreve em tom pessimista e define-se como “um dinossauro em tempos difíceis”.

 

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