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A Suprema Felicidade

Luiz Zanin Oricchio

29 de outubro de 2010 | 10h47

A felicidade não existe; o que existe é a alegria, um personagem diz a outro. Perfeito. Impossível pensar a existência como estado beatífico permanente – a não ser que você seja um monge tibetano e nada deseje. No turbilhão da vida, essa nossa vida de ascensorista – cheia de altos e baixos, segundo a antiga piada – temos nossos momentos. E é só. Convém aproveitá-los. O mesmo pode ser dito do novo filme de Arnaldo Jabor, no qual o comentário está contido – ele próprio é formado por momentos, uns mais felizes que outros. Mais uma vez: é bom aproveitar esses momentos de alegria cinematográfica. Fruí-los e degustá-los. E talvez esquecer um pouco o conjunto, se isso for possível.

Pois é claro, que, sem ser um Amarcord à carioca, A Suprema Felicidade é um filme construído “à maneira de Amarcord”. Boa parte da obra de Fellini é tecida dessa arte de fragmentos, do mosaico, da tapeçaria. É assim em Amarcord, mas também em A Doce Vida, Oito e Meio e Satyricon, para citar alguns. Neles, a história não precisa progredir em linha reta, mas se constrói por núcleos em aparência autônomos, que se articulam entre si. O impacto – emocional, psicológico, intelectual – depende tanto da espessura dessas células quanto da ligação intrínseca que guardam entre si. É apenas dessa maneira que o todo se completa e fica maior que a soma das partes. Essa organicidade é frágil em A Suprema Felicidade.

Dessa forma, se nos projetamos com intensidade em alguns momentos dessa retrospectiva memorialística de um Rio idealizado, em outros nos ressentimos de uma melhor elaboração – às vezes o que atrapalha são diálogos mais frágeis; outras, a mise-en-scène menos inspirada. Sentimos ora o filme nos conquistar, ora nos devolver à terra, um tanto desanimados. Queríamos que nos envolvesse, em sua promessa temporária de felicidade, e ele nos frustra. Desejaríamos voar alto, como quer outro dos personagens (o pai, interpretado pelo ótimo Dan Stulbach), e sentimos o chão sob nossos pés.

Isso porque existe algo que não funciona de todo no plano de voo de A Suprema Felicidade. É obra memorialística, que remete aos anos de formação do autor, em registro fantasmático e idealizado. O risco desse projeto é comprazer-se em seu próprio narcisismo, em regime de gozo solitário, sem se comunicar, emocionalmente, com o interlocutor possível – o público. Comunicar, no caso, significaria criar a ficção (muito real) de que aquela memória poderia também ser a minha, a sua, a nossa. “Mutato nomine de te fabula narratur”, dizia Horácio, em suas Sátiras. Mudando os nomes, a história fala de você. Não é o caso.

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