A solidão do maratonista
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A solidão do maratonista

Luiz Zanin Oricchio

24 de março de 2013 | 12h16

Uma Corrida sem Fim (The Loneliness of the Long Distance Runner) é um estupendo filme de Tony Richardson, um dos nomes maiores do free cinema inglês dos anos 1960 – os outros mais conhecidos são Lindsay Anderson e Karel Reisz.

O filme começa com a voz em off de Colin Smith (Tom Courtenay), contando como a corrida sempre foi importante para sua família…como meio de evitar a polícia. E, poderia, acrescentar, como forma de ganhar a vida na dura Inglaterra dos anos 60. Enquanto pensa (e ouvimos sua voz), Colin corre e, no desfecho da história, veremos a importância que essa disputa em particular tem para ele. A história é estrutura na forma de um flash back. Começa com a corrida e somos levados a ver como Colin chegou a ela e o significado que a vitória terá para sua vida.

Não devemos nos iludir e achar que se trata de um filme sobre um esporte, o pedestrianismo. Colin mesmo já nos diz que estamos diante de um drama social. Do qual ele fará parte como protagonista. Tentando descolar uns trocados com amigos, assalta uma padaria e acaba enviado para uma casa de correção. É lá que ele terá a oportunidade de dar a volta por cima, dadas suas virtudes atléticas.

Fosse Uma Corrida sem Fim um filme banal e seria isso o que teríamos – uma variação sobre o tema da segunda chance, o valor da ressocialização, etc. Em Richardson, o que temos, pelo contrário, é o elogio da rebeldia, o desejo intenso de se opor ao status quo, mesmo quando isso significa pagar um preço bastante caro. Em preto e branco, ritmo de tirar o fôlego, somos levados pela surpresa de uma proposta inovadora e sem concessões. No fim da corrida de Colin, quem fica sem fôlego é o espectador.

Nem sempre Richardson (1928-1991) abraçou o cinema com alma tão radical como neste A Solidão de uma Corrida sem Fim. Seu trabalho mais conhecido ainda é Tom Jones, um belo filme, inspirado no romance de Henry Fielding, com Albert Finney no papel. Depois foi para Hollywood, onde dirigiu obras pouco memoráveis. A sua marca melhor é a do enragé dos anos do free cinema, filmes com peso social como este A Solidão de uma Corrida sem Fim. Nele, forma e conteúdo se encontram e se harmonizam num todo de alta voltagem política. Não é toda hora que se faz um filme assim.

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