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A servidão voluntária *

Luiz Zanin Oricchio

28 de maio de 2013 | 08h58

O Santos deu muito a Neymar e Neymar deu muito ao Santos. O clube lhe deu formação, uma camisa sagrada para vestir e uma bela vitrine, além de um baita salário. O jogador retribuiu com títulos, aumento de sócios, visibilidade e faturamento, além de grandes alegrias. Estão pagos, um e outro. Mais: Neymar deu, não ao Santos, mas ao futebol brasileiro, momentos inesquecíveis de beleza. Quem viu, viu, porque acabou. Agora só pela TV e com uma camisa que não nos diz nada. É diferente.

Então, feitas as contas, tudo somado e dividido, ficamos mano a mano, como diz o tango de Gardel? Talvez, mas resta a dúvida. Se era tão feliz aqui, como dizia (e as lágrimas na despedida o provaram), e se aqui ganhava tão bem, por que Neymar foi embora?

Vamos dizer com franqueza: pelo dinheiro. Pela lógica do capital, e não por qualquer dessas bobagens ditas por aí, tais como a possibilidade de aprimoramento tático, jogar contra e entre os melhores, o compromisso com sua arte e blá-blá-blá. Nada disso: é a força da grana, e deveríamos enfrentar o fato. Nada existe de mau nisso. Se Neymar já ganha muito aqui, seu estafe antevê a possibilidade de ganhar muito mais na Europa. Simples assim.

Pela tal lógica do capital, Neymar já deveria ter saído muito antes, quando o Chelsea fez proposta para contratá-lo e o Santos bolou um plano para que ficasse. Qual a filosofia dessa engenharia econômica? Mostrar ao jogador que poderia aqui ganhar tanto quanto lá. E, ao clube, que poderia faturar com a presença do ídolo tanto quanto ou mais do que com sua venda. Os dois objetivos foram realizados. O plano deu certo. Em parte. Onde falhou?

Como toda ideia de fato inovadora, esta também tinha seu lado visionário, no bom sentido. Se o Santos havia segurado sua estrela, outros clubes, por emulação, fariam o mesmo. Poderíamos vislumbrar um círculo virtuoso, com o Brasil melhorando o nível técnico do seu futebol, valorizando seu espetáculo, vendendo os direitos de transmissão e, a médio prazo, rivalizando com a Europa. O ambiente econômico era favorável: crescimento aqui, recessão lá. Quando teremos oportunidade igual? No entanto, os outros clubes não seguiram esse caminho. O Inter vendeu Oscar, o São Paulo vendeu Lucas e outras vendas de jovens, como Bernard, já se anunciam. O próprio Santos cedeu e desfez-se do seu astro. A cada vez que um desses meninos geniais vai embora o futebol brasileiro morre um pouco mais.

Neymar, que poderia ter sido o pioneiro desta nova onda, tornou-se apenas a exceção à regra. E, como toda exceção, passou ser combatida. Assistimos a uma onda que nasceu tímida, depois cresceu e transformou-se em tsunami, na quase unanimidade de que ele deveria sair do País o mais rápido possível. Uniram-se jogadores em atividade, ex-boleiros de talento reciclados em oráculos, mandachuvas da CBF, Scolari e Parreira à frente, cronistas esportivos, dos toscos aos sofisticados, cavaleiros do apocalipse das mesas redondas, somados às torcidas adversárias (a vaia dos flamenguistas na despedida em Brasília foi grotesca). Todos, em uníssono, passaram a grasnar o coro de “Vai, Neymar”.

Ouvi poucas vozes dissonantes. Neste jornal, a palavra lúcida de Antero Greco, que escreveu dois estupendos artigos a respeito, “O brasileiro quer tristeza” e “O Brasil é pequeno” (Estadão, 22/5/2013 e 27/5/2013). Na TV, Fernando Calazans perguntou aos seus parceiros de mesa como havíamos chegado ao absurdo de achar que um jogador do país pentacampeão do mundo precisava ir para a Europa aprender a jogar futebol? “Didi precisou? E Garrincha? Pelé foi aprender a jogar na Europa?”É um escândalo, de fato.

Enfim, Neymar foi levado pela força da grana e, ao mesmo tempo, expulso pelo ambiente quase consensual de bota-fora criado dentro do Brasil, país de baixíssima autoestima, como se sabe. Foi um crime coletivo, que poderá ser estudado um dia como “case” particular do nosso ancestral complexo de vira-latas.

De agora em diante Neymar poderá ser admirado sem reservas no Brasil, pois passa a jogar na terra dos “senhores”. A pior servidão é a do escravo que acorrenta a si mesmo.

* Coluna publicada no Esportes do Estadão


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