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A Separação

Luiz Zanin Oricchio

20 de janeiro de 2012 | 10h32

Quem nada sabe de A Separação parece assistir logo de cara a uma sucessão de fatos banais. Um casal rompe o matrimônio e decide quem vai ficar com a filha. O marido, agora sozinho, precisa cuidar do velho pai com Alzheimer e contrata alguém para ajudá-lo. A partir daí as coisas começam a patinar, a ficar fora dos eixos, como disse Shakespeare numa frase famosa.

Asghar Farhadi, como quem não quer nada, monta, a partir desses elementos, uma reflexão poderosa sobre questões universais como a ética, valores religiosos e laicos, mentira e verdade, justiça e compaixão. Não é pouca coisa o que propõe com esse filme, um dos mais perfeitos dos últimos tempos.

O filme é bastante falado, como, aliás, costuma ser o cinema iraniano, de modo geral. Há, parece, uma cultura da discussão nessa sociedade que nos vendem como tão fechada e impermeável ao diálogo externo. Mas essa pode ser uma impressão equivocada. Vendo-se os filmes que fazem, ficamos com a sensação de uma dialética permanente instaurada entre as pessoas, e que às vezes assume tom bastante áspero.

Há, sim, os detalhes da cultura local, como a mulher que consulta por telefone alguma autoridade religiosa para saber se pode limpar o idoso de que cuida ou deve esperar que outro o faça. Afinal, ver o corpo de um homem nu é pecado para uma mulher casada, mesmo que esse homem seja um pobre velho senil.  Mas a noção de pecado, tão arraigada, também será responsável por outro dilema na continuidade da história: saber se quem empurrou uma mulher sabia de antemão que ela estava grávida ou não.

Claro, esses problemas pessoais extrapolam a intimidade e entram na esfera social ao se confrontarem com a justiça. Desse modo, ganham dimensão política, inesperada em um filme iraniano. Esse Asghar Farhadi não tem nada de bobo.

 

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