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A seleção em busca do seu ídolo *

Luiz Zanin Oricchio

04 de junho de 2013 | 09h40

Vi o jogo entre Brasil e Inglaterra e concordo com colegas mais sábios do que eu. A seleção, como o Maracanã, vive um período de obras. Elas caminham em ritmo lento e tortuoso. Mas deverão estar prontas para a Copa do Mundo. A Copa das Confederações é ensaio. E, como dizia o imortal Didi, jogo é jogo e treino é treino. Convém não confundir.

Há uma diferença. O Maracanã deve ficar impecável, apesar de todas as profecias do apocalipse. Quanto à seleção, há controvérsias. Acho que houve progresso. Em especial por aquilo que apresentou no primeiro tempo. Mas, vamos convir, continua em nível inferior à era Mano Menezes, que já não era essas coisas. A seleção será mais ou menos essa que está aí. Não vejo grande polêmica em torno de nomes. A não ser que surja alguma grande promessa de última hora e então teremos aquele exercício típico de toda Copa: a mídia fazendo lobby por seus nomes e a comissão técnica se recusando a levá-los em consideração. O exemplo mais recente foi Dunga, que se recusou a levar os então garotos Ganso e Neymar, que estavam gastando a bola em 2010.

Há outros exemplos mais recuados no tempo, como Romário, que Felipão esnobou na Copa de 2002. Tudo leva a crer que o “Romário” de 2014 será Ronaldinho Gaúcho. Quem o viu domingo, brilhando em lançamentos primorosos na partida contra o São Paulo (e esta nem foi uma de suas melhores partidas), ficou se perguntando por que ele não estava com a amarelinha no jogo da seleção terminado havia pouco. Teimosia do Felipão?

Sim, mas tudo leva a crer que também faz parte de uma de suas artimanhas para unir o grupo. Há sempre um grande nome que fica de fora em nome da “unidade do grupo fechado”, da família montada à maneira meio mafiosa e meio folhetinesca, com o lema de “todos por um e um por todos” como n o romance Os Três Mosqueteiros, de Alexandre Dumas. Os mosqueteiros agora serão 23 e todos os de fora serão estranhos a essa fraternidade.

Felipão confia mais nesse tipo de imaginário de lealdade que na fria racionalidade dos esquemas táticos. É um condottiere à moda antiga, um caudilho latino, um salvador da pátria, e, por isso, e não por suas qualidades de estrategista, foi chamado.

Portanto, a seleção que vai entrar em campo na Copa das Confederações e, depois, na Copa do Mundo, dificilmente será um time a encantar o público. E digo “público” de propósito, porque o desafio da CBF, uma vez que a Copa será realizada no Brasil, é transformar a plateia em torcida. Isto é, criar uma mística em torno desta seleção, dar-lhe a magia que ela ainda não tem. Felipão faz parte do plano, como o condutor ungido, rumo à vitória.

O outro elemento imprescindível é o ídolo. Aquele jogador fora de série que conduzirá a equipe dentro de campo, assim como Felipão a conduz da beira do gramado. Algumas vezes pensou-se que esse nome seria de algum jogador consagrado por anos de experiência e títulos conquistados, como Kaká ou Ronaldinho. Ambos foram descartados.

Hoje o candidato a ídolo nacional é um só e atende pelo nome de Neymar. O jogador já percebeu que é o eleito e atua com a desenvoltura de dono do time. Manda em campo e pede com gestos o apoio da torcida, digo, do público.

A emissora dominante também já percebeu que deve colocar suas fichas em Neymar. Daí a badalação em torno da venda para o Barcelona e a super cobertura da apresentação do atleta ao time catalão. Podem se preparar para o que virá em seguida – sua estreia, o primeiro drible, o primeiro gol, a primeira tabela com Messi, etc. Há muita coisa em jogo e a emissora coloca toda a sua força na promoção do espetáculo de 2014.

Neymar é mesmo o cara. Controverso em sua época no Santos, chamado de cai-cai, agora, como “europeu”, coloca-se acima de qualquer suspeita. Já volta de sua apresentação taticamente mais maduro.
*Coluna publicada no Esportes do Estadão

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