A salvação dos DVDs “de arte”
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A salvação dos DVDs “de arte”

Luiz Zanin Oricchio

19 de abril de 2010 | 15h58

Crise, primeiro filme de Bergman

Crise, primeiro filme de Bergman

Um tempo em que se pode baixar qualquer filme pela internet marcaria o fim do tradicional DVD? Afinal, para que pagar por um produto que você pode obter de graça na rede? Certo. E, no entanto, errado. Porque, apesar de toda a facilidade proporcionada pela internet e pela pirataria, os distribuidores dos DVDs de arte continuam ativos e gozando de boa saúde. Ou pelo menos alguns deles.

A Versátil, de São Paulo, tem se tornado conhecida pelo lançamento, ainda em curso, da obra completa de um monstro sagrado como Ingmar Bergman. O sueco é amplamente conhecido por seus títulos mais famosos, como Morangos Silvestres, O Sétimo Selo e Fanny & Alexander. A sacada da Versátil foi, de um lado, não desprezar esses títulos mais quentes, mas, ao mesmo tempo, resgatar trabalhos da primeira fase de Bergman, os filmes que fez antes de se tornar um mestre do cinema mundial, como Crise (1945) e Chove Sobre o Nosso Amor (1946).

É um veio interessante, e que tem rendido bons frutos, como diz seu curador Fernando Brito. O “x”da questão da sobrevivência, para ele, é encontrar um nicho para se abrigar dos problemas: “Nos últimos anos, o mercado de DVD está em queda ou estagnado, dependendo da análise tomada como referência. Mas não podemos tomar o mercado de DVD como bloco monolítico, há uma pluralidade de produtos e perfis. O nosso nicho de mercado ainda é o menos afetado pela pirataria e pelos downloads”.

O que vem a ser esse nicho? Além do projeto de lançamento do Bergman completo, a Versátil tem investido em raridades de mestres, como a obra televisiva de Roberto Rossellini, pai do neorrealismo. Filmes como O Absolutismo e a série dedicada a filósofos como René Descartes, Agostinho e Blaise Pascal, eram conhecidas no Brasil apenas por textos de enciclopédias. Agora podem ser vistos em excelentes cópias, em discos que contêm também extras, como entrevistas com especialistas que explicam a trajetória do personagem. Como os objetivos de Rossellini eram mesmo didáticos, o tom professoral de alguns desses extras não destoa do projeto original.

Frederico Machado, proprietário da Lume, também se diz animado, apesar de reconhecer a existência de problemas: “Continuaremos sim com os lançamentos em DVD e posteriormente em Blu Ray dos nossos filmes, pois percebemos que nosso público é muito segmentado e tem perfil de colecionador”. Esse perfil é fundamental, diz Fernando Brito, indo na mesma direção. “O nosso público tem mesmo o perfil do colecionador, alguém que prefere guardar em sua casa o produto original, com boa qualidade de imagem e som, e não um arquivo baixado da internet.”

Download. Isso quer dizer que os distribuidores de filmes de arte estão ao abrigo dos problemas causados pelos filmes “baixados”? Nada disso. “Tenho certeza de que o download nos afeta indiretamente, pois ao vender ou alugar menos os blockbusters, principal fonte de renda das lojas, livrarias e locadoras no setor de DVD, nossos revendedores passam a ter menos verba para comprar nossos filmes”, diz Fernando.

Essa realidade econômica agrava uma questão já complicada, pois as dificuldades não são poucas. Frederico aponta a maior delas: “O problema maior realmente é financeiro. É um processo dispendioso comprar os direitos para o Brasil, replicar o original, providenciar material gráfico, distribuição, pagamentos de taxas e marketing… Acredito que ainda sobrevivam por um bom tempo as coleções desses filmes em que acreditamos. Agora, é preciso trabalhar de forma bastante inteligente, criando material extra interessante, disponibilizando novas artes gráficas, textos, ensaios para acompanhar o lançamento. Em pequena escala, com cuidado e atenção, como acreditamos que o trabalho de cinema de qualidade deve ser feito, sempre vai perdurar o desejo de pessoas adquirirem esse tipo de filme. É como um colecionador de arte. Mas repito, isso tudo vale para uma empresa como a nossa, que vê o cinema como arte realmente e não como mero objeto comercial”.

Sobrevivência. Os dois concordam em outro ponto. Além de se aferrar ao nicho representado pelos colecionadores de filmes de arte, também é preciso diversificar um pouco para sobreviver. A Versátil, muito focada no cinema europeu, já vem distribuindo raridades do cinema americano como os já lançados Na Teia do Destino, de Max Ophüls, e Sua Única Saída, o faroeste psicanalítico de Raoul Walsh. A Lume vai além: começa a partir do ano que vem a trabalhar também com distribuição de filmes nos cinemas. “A Lume é também exibidora e produtora, além de distribuidora. E a distribuidora nasceu por último, justamente por percebermos que era o maior entrave no processo de realização de um filme nacional”, diz Frederico.
Lançamentos
lProjeto Bergman
(Selo Versátil)
Fevereiro – Crise (1946) –
já lançado
Março – Chove Sobre Nosso Amor (1946) – já lançado
Abril – Um Barco para a Índia (1947) – já lançado
Maio – Música na Noite (1948)
Junho – Porto (1948)
Julho – Prisão (1948)
Agosto – Sede de Paixões (1949) Setembro – Rumo à Felicidade (1950)
Outubro – Quando as Mulheres Esperam (1952)
Novembro – No Limiar da Vida (1958)
Dezembro – Para Não Falar
de Todas Estas
Mulheres (1964)

Para o fim de 2010 ou primeiro semestre de 2011:
Coleção Fanny e Alexander – A versão de cinema de Fanny e Alexander e a versão integral (série) com mais de 300 minutos, inédita no Brasil
lOutros (Selo Lume)
A Conversação, de Francis Ford Coppola
Alice, de Claude Chabrol
Antes da Chuva, de Milcho Manchevski
Lola, a Flor Proibida, de
Jacques Démy
O Segundo Rosto, de John Frankenheimer
A Viagem do Capitão Tornado, de Ettore Scola
Paisagem na Neblina, de
Theo Angelopoulos
Clamor do Sexo, de Elia Kazan
Kafka, de Steven Soderbergh
Os Viciados, de Jerry Schatzberg

(Caderno 2, 19/4/10)

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