A saga do Xingu
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A saga do Xingu

Luiz Zanin Oricchio

05 de abril de 2012 | 12h59

 

Fernando Meirelles disse que tentavam havia tempo convencê-lo a produzir a saga dos Villas Bôas, mas ele continuava hesitante. “Num fim de semana li o A Marcha para o Oeste” e vi que ali havia uma história”, afirmou.

Sem dúvida, o livro, agora reeditado pela Cia das Letras, é um excelente relato da expedição Roncador-Xingu. Lê-se como romance. O que, no fundo, o livro é. Sob forma de diário, é assinado por Orlando e Cláudio Villas Bôas, e mantém o tom cursivo e atraente de aventureiros humanistas, que amam os índios e os defendem, sem qualquer tipo de teorização a respeito.

Melhor ainda é ter ouvido essas histórias da boca de Orlando, o que aconteceu quando fui entrevistá-lo para uma matéria do Caderno 2 em 1995. Orlando, aos 81 anos, já se havia retirado da vida agreste e desfrutava a aposentadoria em sua espaçosa casa no Alto da Lapa, em São Paulo. Vivia cercado de recordações e objetos indígenas. A entrevista foi pretexto para ótima conversa, que durou toda uma tarde.

Dizer que Orlando era apaixonado pela cultura indígena parece uma banalidade. Mas ele era apaixonado de forma orgânica, visceral, quase uma monomania. Começava a falar e o fazia com admiração. Talvez não extraísse do convívio com os índios uma teoria da linguagem e do parentesco, como fizera Claude Lévi-Strauss, mas tirava dessa familiaridade uma vivência cheia de sabedoria.

Por exemplo, dizia que nunca conhecera seres humanos tão civilizados quanto os índios. “Nunca vi um índio adulto sequer levantar uma mão para ameaçar uma criança”, dizia, cheio de admiração. E esse respeito pela infância ia tão longe que eles não impunham nem mesmo a educação ou a transmissão da tradição aos menores.Tudo teria de vir a seu tempo, quando a criança estivesse pronta e pedisse por isso, “Em certo sentido, é superior a Summerhill”, espantava-se, fazendo referência à famosa escola inglesa, modelo de educação liberal nos anos 1960.

Sem qualquer idealização, Orlando se encantava com o espírito artístico dos índios. Contou uma história rica de significado. Mostrou uma panela de barro, ricamente pintada em sua base. Era por certo um trabalho que custava não apenas talento mas muito tempo. Só que o tempo, para o indígena, é outro. E após haver gasto semanas a pintar panelas daquele tipo, eles as levavam ao fogo o que, automaticamente arruinava o trabalho. Orlando perguntou por que gastavam tanto tempo para fazer uma pintura que em seguida seria destruída. O índio lhe respondeu, como se tivesse pena da sua ignorância: “Porque se não pintar não é panela, ué”.

 

Crítica do filme

Cao Hamburguer pensou a saga da criação do Parque Nacional do Xingu da maneira como foi – como resultado de idealismo e de um grande sentimento de aventura. Qualidades, aliás, que se foram erodindo com o tempo até caírem de moda, pelo menos no plano prático. Nos discursos vazios, continuam sendo palavras nobres.

Os irmãos eram de fato aventureiros, mas nada preocupados em amealhar riquezas. Era o aspecto humano que os tentava. No caso, a sobrevivência dos índios no interior de um país que já começava a fechar-lhes o cerco. Sua missão era basicamente humanística, no que essa qualidade tem de mais nobre: respeitar e preservar culturas alheias. Mesmo que seja à força: numa das cenas mais fortes do filme, uma família é arrancada da sua terra, sob ameaça de arma e embarcada rumo ao Xingu. Se permanecesse onde queria, seria dizimada.

É bom também que os Villas Bôas não sejam apresentados como seres perfeitos. Cada um deles é visto em suas contradições. Leonardo (Caio Blat) com sua fraqueza e o envolvimento com uma índia; Cláudio (João Miguel) com suas incertezas, o que faz dele o personagem mais complexo, muito por mérito do ator; Orlando, o homem prático que, para atingir seus objetivos, não hesita em firmar compromissos políticos. Há conflitos entre os irmãos. Leonardo é alijado do grupo. Claudio acusa Orlando de excessiva flexibilidade política; este lhe responde que, sem negociar, nada conseguiriam. É verdade. Tanto assim que obtém a assinatura do decreto que cria o Parque Nacional do Xingu do mais improvável dos personagens – Jânio Quadros, em sua breve e desastrada presidência.

E há os índios, seu meio ambiente, seu modo de ser – que se tornam, de fato, os personagens maiores deste filme amoroso, mas nada piegas e nem cultor do mito do bom selvagem. A natureza é tanto sedutora quanto hostil. As relações humanas, tão fraternas quanto ásperas em algumas passagens. E, do todo, fica a sensação desolada que, no encontro entre duas culturas, uma muito mais predatória que a outra, uma delas tende a sucumbir. Xingu descreve esse ato heroico de preservação, sempre precário, sempre provisório, felizmente contra a lógica do mais forte. Essa disposição de lutar contra as evidências é o grande legado dos Villas Bôas.

 

 

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