As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

A sabedoria de quem viu a fronteira

Luiz Zanin Oricchio

08 de março de 2008 | 20h40

Há alguns anos estreou por aqui um filme bobo, no qual um grupo de jovens fazia a experiência de chegar perto da morte para ver como era e, de volta, tiravam as mais variadas conclusões. Quis a fatalidade que um dos mais conhecidos médicos brasileiros tivesse de passar pelo conhecimento, desta vez bem involuntário, da presença próxima da ‘indesejada das gentes’ e, poupado da ceifadeira, voltasse para nos contar o que aconteceu nessa quase viagem sem volta. O médico é o dr. Drauzio Varella, autor do best-seller Estação Carandiru, que adoeceu de febre amarela, quase morreu e, salvo na undécima hora, tirou da situação material para um livro magnífico – O Médico Doente (Companhia das Letras, 136 págs, R$ 31).

Outra pessoa talvez encontrasse um título mais pomposo para esse passeio perto do outro lado do mistério. Não o dr. Drauzio. O título reflete fielmente o espírito do livro. É modesto, descritivo, objetivo. Quase pede desculpas por alguma possível presunção de soberba; por, supostamente, saber mais do que os outros sobre a mais insondável das dúvidas humanas. Drauzio Varella age e pensa como o médico que é. Inclusive no acompanhamento da doença, da evolução e agravamento do quadro clínico, é o médico que se auto-observa, como se metade de si estivesse deitada na cama e outra metade sentada na cabeceira, observando um paciente que piora e pode partir.

Drauzio sentiu sinais de que alguma coisa não ia bem em seu organismo depois de uma de suas inúmeras viagens à Amazônia, onde desenvolve pesquisas. Maratonista, havia planejado correr 24 quilômetros no Minhocão, depois de chegar de Manaus. Não completou o trajeto e atribuiu o fato ao cansaço do vôo. Fez a ida e volta no Elevado, de três quilômetros de extensão, ‘apenas’ seis vezes, o que diz muito sobre a sua forma física habitual. Parou, bebeu uma água de coco e voltou para casa. Subiu – a pé – os 14 andares e deu início à sua rotina, que incluía visitas a pacientes, gravação de um programa para TV, etc. Mas algo não ia bem e ele sentia febre e, nos dias seguintes, passou a sentir tremores e febre em determinadas horas do dia. Com o agravamento do quadro, teve de ser internado.

E, aqui, a primeira ‘lição’. Doente, o médico comporta-se como o pior, o mais rebelde dos pacientes. Não deseja ser internado de modo algum, embora saiba, racionalmente, que essa seria a conduta indicada em vista de uma doença que se mostrava perigosa e, ainda mais insidiosa, porque não havia um diagnóstico. Este surge mais tarde e, junto com ele, o agravamento da moléstia e o perigo a que ela conduzia – a falência do fígado e a morte.

Além dos desconfortos da doença, Drauzio experimenta na pele o que qualquer paciente grave já sentiu quando hospitalizado. O doente deixa de ser adulto. É tratado com mentiras ou eufemismos piedosos. Regride à infância aos olhos dos outros. As enfermeiras trazem a ‘comidinha’ e dão um ‘banhinho’ no infeliz. Ninguém faz isso por mal, é claro, e a carência afetiva de quem se sente desamparado do ponto de vista orgânico talvez seja algo ainda a ser estudado. Todo mundo gosta de ser cuidado e esse desejo aumenta numa situação de fragilidade, como a doença. Em todo caso, a infantilização contribui para que o doente entre num estágio de regressão psicológica.

No entanto, por regredido que esteja pela fragilidade física, o mal-estar, a consciência turvada pelo uso de medicamentos, etc., sempre sobra um resto de eu racional, que pensa, avalia e julga com lucidez. Para um médico deve ser bem mais complicado, uma vez que dispõe de instrumental científico para saber de sua real situação, por mais mentiras piedosas que lhe digam. E, a certa altura, o dr. Drauzio – um oncologista que já perdera muitos dos seus pacientes – sabia perfeitamente que estava à beira da morte.

Há um trecho muito significativo, que merece ser citado. ‘Ao olhar para mim em pé ao meu lado, achei que os olhos do médico evitaram os meus. Senti vontade de perguntar se não havia saída, mas recuei, porque o induziria a mentir. A expressão constrangida que toma conta de mim no momento em que pressinto o final de meus doentes estava estampada em meu rosto. Impossível enganar a mim mesmo.’

No auge da crise, Drauzio aprende mais uma ‘lição’, esta, a mais surpreendente de todas – o desapego do agonizante diante da vida, em vez dos desenlaces melodramáticos que se vêem no cinema. Como médico cancerologista, ele já havia observado o fenômeno, mas do outro lado do balcão. Um paciente, por exemplo, lhe disse que os filhos já não significavam nada para ele; os netos, era como se nunca tivessem existido. É uma espécie de desprendimento psicológico, talvez uma trégua da natureza para o corpo doente, que, visto de fora, lhe parecera frieza por parte do moribundo. Mas era o que experimentava, ele também. A aceitação: ‘Morrer é tão fácil, concluí.’

Essa constatação não é estranha à literatura. Há uma passagem magnífica em A Montanha Mágica, de Thomas Mann, na qual o diretor do sanatório de tuberculosos conforta a mãe de um moribundo lhe explicando como é tranqüila a passagem para o outro lado, quando enfim chega a hora.

A suave passagem. Como sabemos, por sorte o dr. Drauzio não atravessou a fronteira e está por aí, vivo, são e mais ativo do que nunca. Quando tudo parecia perdido, a contagem das transaminases, que mede a destruição das células hepáticas, começou a cair. Ele iria sobreviver e recebeu a notícia com a mesma serenidade com que aceitara a perspectiva da morte no dia anterior. O alívio que leu no rosto dos colegas confirmou sua impressão de que todos previam desfecho fatal para o seu caso. Apenas algumas mulheres de sua família, entre elas a esposa Regina (a atriz Regina Braga), acreditavam que tudo iria terminar bem. Elas acertaram e os médicos erraram. Inclusive o médico doente.

E esse médico, que já vira muita gente mudar sua vida depois de estar perto da morte e escapar, não tirou para si mesmo nenhuma conclusão especial da situação-limite. Apenas uma, ínfima, de fato: decidiu começar o atendimento no consultório pela manhã para poder voltar para casa mais cedo. Só isso. Ele mesmo se lamenta de uma possível ‘falta de sensibilidade’ para tirar lições grandiosas da experiência que lhe fora concedida, a contragosto, é claro. Curado, queria continuar a sua vida, do jeito que era, com a mesma mulher, o mesmo trabalho, os mesmos amigos, os mesmos hábitos. A mesma rotina, o mesmo dia-a-dia. Mas não é essa a melhor filosofia dos antigos: Carpe Diem, o dia que deve ser colhido e desfrutado, sabedoria de quem conhece de perto a finitude, não a da Humanidade, de maneira abstrata, mas a de si próprio?

(Caderno 2, 7/3/08)

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.