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A regra do jogo

Luiz Zanin Oricchio

29 de agosto de 2012 | 20h11

PARIS – Repercute ainda e dá margem a reflexões a nova fase do Paris Saint Germain. Como vocês sabem, o PSG tem sido uma espécie de patinho feio do futebol francês, sempre a comer poeira dos rivais.

Isso parece mudar com a compra do clube por um potentado do chamado “mundo árabe”. Agora cheio de dinheiro, o clube de Paris tem como selecionador o brasileiro Leonardo, que busca formar um esquadrão. Chegaram, na nova fase, o brasileiro Thiago Silva e o argentino Ezequiel Lavezzi, aos quais se juntou a joia da coroa, que atende pelo nome de Zlatan Ibrahimovic. O articulista Michel Pautou, no jornal diário Le Figaro (conservador) entende que a política Nasser al-Khelaifi, do Catar, para o PSG, é a mesma de Florentino Perez para o Real Madrid. Uma política de galáticos, de nomes estelares.

Numa Europa em dificuldades econômicas, talvez propensa a fechar a mão para transações mais ousadas, Pautot saúda as políticas exuberantes de clubes como Chelsea e Manchester City, para os quais a palavra crise parece não ter grande significado.

 

O articulista é um entusiasta da mundialização do futebol. Escreveu um livro a respeito, Les Sports et la Europe – La Règle du Jeu (Os Esportes e a Europa- as Regras do Jogo), prefaciado pelo jogador francês Marcel Dessailly que, em seu texto garante: “Tive no Milan o melhor momento da minha carreira profissional. Foi na Itália que eu mais progredi porque lá convivi com os melhores do mundo”.

Em apoio à sua tese, Pautot lembra que a importação de estrelas sempre foi fundamental para os clubes, desde o tempo de Di Stefano e Puskas no Real Madrid, passando pela fase dos holandeses Rijkaard, Van Basten e Gullit no Milan, etc. Havia entraves, lembra, como as cotas, que restringiam o número de estrangeiros nas equipes. Barreiras praticamente demolidas com a Lei Bosman (de 1995) e Malaja (2002), que asseguram a livre circulação de trabalhadores na União Europeia e os garantem contra discriminações. A internacionalização dos clubes, segundo o ideólogo Pautot, é apenas  uma expressão da civilidade. “A União Europeia não foi feita para coalizar Estados, mas para unir os homens”, diz, citando Jean Monnet, um dos pais da Europa unificada.

Com todo esse discurso econômico, fantasiado de civilizatório, a disposição deles é sempre de compra. Com ou sem crise. Crises, aliás, que demoram, mas passam. Cedo ou tarde, eles se reerguem e vêm aos mercados emergentes atrás das novidades mais promissoras. É uma mentalidade imperial, com a qual temos de nos deparar.

Essa disposição de compra permanente não funciona sem a contrapartida, isto é, a disposição de venda em tempo integral, da nossa parte. É o que explica, de maneira mais ampla, casos como o de Ganso e seu estafe na ânsia de se desvencilhar rapidamente do clube formador e lançar-se ao mercado. Ou indo diretamente ao clube europeu, ou encontrando um brasileiro que sirva de ponte. É a regra do jogo, como diz o francês. Cabe a nós aceitá-la como cordeirinhos.  Ou lutar contra ela.

* Coluna Boleiros, publicada no Caderno de Esportes do Estadão

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