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A Rainha: discussão entre o público e o privado

Luiz Zanin Oricchio

11 de fevereiro de 2007 | 11h07

É possível que se abata sobre Stephen Frears a mesma tempestade de críticas que desabou sobre Eric Rohmer quando lançou A Inglesa e o Duque. Como nem o filme de Rohmer nem o de Frears parecem abertamente antimonarquistas, não faltará quem os veja como pró-monarquistas. Mas talvez haja outra maneira de interpretá-los: como tentativas de jogar um pouco de luz sobre algo que pouco se vê no cinema, a intimidade da nobreza.

Rohmer já se antecipava aos detratores dizendo que o ponto de vista do povo durante a Revolução Francesa fora registrado para sempre em La Marseillaise, de Jean Renoir – e ele, Rohmer, queria apenas ver como fora a experiência da nobreza naquele ano de 1789.

Frears poderia dizer coisa parecida. Como se comportam nobres em momentos de pressão? Ou, para ir ao ponto: como teria sido para uma instituição conservadora curvar-se às exigências dos tempos e fazer concessões que, em outras circunstâncias, jamais consentiria? Claro, no século 20, em 1997, cabeças reais não mais rolavam sob a lâmina da guilhotina. Mas a falta de jogo de cintura poderia colocar a monarquia inglesa em situação difícil. Ou, pelo menos, na contramão do sentimento popular de sua época, naquela situação determinada.

Na verdade, uma situação de crise, quando morre em acidente a princesa Diana, que então já havia se separado do príncipe Charles. A rainha Elizabeth II (Helen Mirren, magnífica) quer tratar o caso como assunto privado da família Spencer, de Diana. O então recém-empossado primeiro-ministro Tony Blair (Michael Sheen) entende que, dada a comoção popular, o assunto tornou-se inevitavemente público. Percebe mais: que não existem mais assuntos privados naquele final de século 20, em plena vigência da sociedade do espetáculo, da qual os paparazzi que acabaram causando o acidente fatal eram os símbolos mais evidentes.

Há então, no miolo do filme, essa discussão entre o público e o privado, entre Blair e Elizabeth II. De um lado, o orgulho e a discrição: ‘É assim que somos conhecidos no mundo; é por isso que nos admiram’, dirá uma crédula Elizabeth em certo momento. No lado oposto, o conselheiro político de Blair que, no calor da hora, forja a expressão ‘princesa do povo’ e ajuda a transformar Diana, depois de morta, em uma figura midiática ainda mais intensa do que fora em vida. Show biz da morte.

A discussão era se Elizabeth deveria ou não fazer um pronunciamento sobre Diana, se uma bandeira seria hasteada a meio pau em sinal de luto e que tipo de funeral se faria. Estas hesitações terminam em uma fala devidamente copidescada por um marqueteiro (para que sugira emoção) e lida num teleprompter.

É certo que Frears humaniza tanto Blair quanto Elizabeth II. Blair ainda não era o aliado dócil de Bush e Elizabeth, bem, ela era a rainha… Em entrevistas dadas na época em que o filme participou do Festival de Veneza, tanto Helen Mirren quanto Stephen Frears descreveram o que era ser um súdito de Sua Majestade. Pode-se ser antimonarquista o quanto se queira, mas a presença da rainha, para um britânico, é algo tão natural quanto o ar que respira, a lei da gravitação universal ou o mau clima londrino. Existe, é só isso, e as pessoas se sentiriam muito estranhas e desamparadas se a instituição da monarquia desaparecesse de um dia para o outro. Essa contradição de sentimentos está no filme.

Mas está, como estão alusões críticas e ironias, na contraluz, construídas de maneira discreta no roteiro de Peter Morgan e, sobretudo, na direção de Frears. Pode-se dizer que este tenha atingido a maturidade em um tipo de cinema narrativo, clássico. Cinema econômico, de encadeamento muito ordenado de planos, com uma direção de atores precisa. Não é apenas Helen Mirren que brilha, mas todo um elenco secundário que parece afiado e solidário do projeto.

Para quem esperava de Frears o desenvolvimento formal mais ousado de quem saiu do Free Cinema dos anos 60, talvez essa opção pela narratividade seja decepcionante. Frears, no entanto, parece se colocar de acordo com os meios formais que lhe permitem uma crítica social moderada. Aguda, porém feita nas entrelinhas dos diálogos e das imagens. Há muitas maneiras de decretar a obsolescência da monarquia e Frears escolheu a mais gentil de fazê-lo.

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