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A radical experiência mística de Sebastião

Luiz Zanin Oricchio

15 de julho de 2007 | 11h36

Talvez As Tentações do Irmão Sebastião seja uma espécie de objeto estranho que baixa, não se sabe de onde, sobre o circuito cinematográfico brasileiro. Em meio a esse circuito, tomado de assalto por blockbusters (Harry Potter entrou com 750 cópias), essa experiência solitária, com pouca ou nenhuma divulgação, realizada por um diretor cearense com trânsito internacional, e que tem por tema a trajetória de um santo que viveu à época do Império Romano. No jargão cinematográfico, esse tipo de filme é um “miúra” incontornável.

E, no entanto… há muita coisa para descobrir nele a quem se dispuser a fazê-lo. Quer dizer, propõe uma experiência diferente para quem se presta a despertar provisoriamente do longo sono cinematográfico que estamos vivendo.

Por exemplo, pode-se pensar na forma cinematográfica adotada por José Araújo e que conta com o auxílio nada negligenciável de um fotógrafo como Antonio Luiz Mendes. O filme começa com um plano magnífico da crucificação, possivelmente inspirado em Caravaggio. Esse diálogo com a pintura prosseguirá ao longo do filme. Diálogo também com uma série de referências cruzadas. Sebastião não será apenas o mártir romano, mas o ícone gay e também d. Sebastião, rei português desaparecido na batalha de Alcácer-Quibir, cuja volta é aguardada como signo da salvação e reviravolta do mundo. O sebastianismo é muito popular no sertão nordestino, como atesta a obra de Ariano Suassuna e a própria literatura de cordel.

O filme se passa em três momentos – na Antiguidade romana, nos anos 90 e num caótico futuro, em 2030, com as cidades devastadas por gangues e tornadas inabitáveis pela poluição, com as ruas cheias de lixo e de dejetos.

É nesse ambiente que se rememora a trajetória do noviço Sebastião, na idade adulta interpretado por Rodolfo Vaz, ator que está no elenco da peça Salmo 91, em cartaz na cidade. Sebastião debate-se entre as exigências da fé e as da sexualidade. Busca o bem e é tentado pelo mal. Torturado pelas dúvidas e pela lembrança de ter sido violentado na infância, procura conforto nas palavras do líder de uma comunidade messiânica. Ao mesmo tempo, sente-se atraído pelo andrógino irmão Gabriel (Majô de Castro).

Num cinema como o brasileiro que, em geral, recusa ao cineasta uma carreira regular, os diretores costumam aproveitar cada projeto para dele tirar o máximo. Assim, surgem obras oceânicas, nas quais o artista tenta resumir o total de suas memórias, influências e questões, o que parece ser bem o caso deste que é o segundo longa-metragem de José Araújo.

Pode-se supor que nele estejam presentes elementos tanto autobiográficos quanto preocupações concernentes ao futuro da civilização sob a anarquia do novo capitalismo; a anomia política; o papel das religiões oficiais e crenças populares no cimento que mantém unida uma sociedade esgarçada; o caráter ambivalente da sexualidade humana, etc., etc.

É pela imersão na cultura popular que o filme tira seus melhores momentos e sua maior profundidade. Araújo vai ao sertão cearense (do qual ele próprio é filho) e registra o sincretismo religioso, a música, a fé, a esperança louca de que um dia as coisas mudem, o apelo ao sobrenatural e a carência absoluta no plano terreno.

A própria dimensão grandiosa do projeto lhe impõe limites. No entanto, a sua integridade de propósitos, o seu testemunho de um mergulho interior radical, seu sentido estético rigoroso fazem com que seja altamente recomendável a quem espera do cinema algo mais do que uma experiência passageira.

(Estadão, Caderno 2, 13/7/07)

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