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A Quase Verdade

Luiz Zanin Oricchio

22 Janeiro 2008 | 11h46

A Quase Verdade (La Vérité ou Presque) é aquele tipo de filme que, pelo menos em seu país de origem, não costuma chamar muito a atenção dos críticos. Dirigido por Sam Karmann, essa mescla interessante de drama, comédia e falso documentário dificilmente ganha grande espaço nas ‘bíblias’ da área, como Cahiers du Cinéma e Positif. No entanto, bem visto, pode se mostrar muito interessante. Ok, é cinema comercial, mas mesmo este não precisa ser incompatível com a inteligência, como se sabe. E A Quase Verdade é um bom exemplo de como duas tendências tidas como opostas podem ser conciliadas.

Muito da sua eficácia vem da atriz , Karin Viard, no papel de Anne, uma estressada apresentadora de programas de TV. Ela vive no limite, pois o programa vem perdendo audiência e já se sabe o que isso significa no mundo da televisão. Tem um casamento morno, com um marido que considera ‘perfeito demais’, e um filho que a culpabiliza por tudo a cada vez que abre a boca. Para combater a tensão, ou talvez o tédio, dorme de vez em quando com o ex-marido (François Cluzet). Este, por sua vez, tem uma esposa nova que está esperando bebê. Essa ciranda acontece em Lyon, aonde chega, de Paris, o escritor Vincent (André Dussollier). Ele vai lançar um livro e tem outro projeto em mente, o de uma biografia da cantora de jazz Pauline Anderton.

O filme, aliás, abre com uma seqüência em preto-e-branco de Pauline, cantando num cabaré, provavelmente nos anos 60. Quem é Pauline? Ninguém sabe direito, pois ela foi um mito, e, ao mesmo tempo, uma obscura lenda local, que não chegou a fazer muito sucesso e nem se tornou conhecida de muita gente. Acontece que era natural de Lyon, e, esse simples fato, desperta a campainha jornalística da apresentadora, que vê uma maneira de dar uma bombada em seu programa decadente.

Pauline, o mito da cantora perfeita, morta num acidente de carro nos anos 70, é a sombra que movimenta a trama. Uma espécie de pano de fundo ativo, como a Dulce Veiga de Caio Fernando Abreu filmada por Guilherme de Almeida Prado, história da cantora famosa que desapareceu do mapa sem dar explicações. Ou do personagem de O Cantor de Tango, de Tomás Eloy Martínez, um intérprete puro, superior a Gardel, que precisa ser descoberto numa Buenos Aires de sonho e nunca fez uma gravação. É a lenda dos cantores, dos músicos obscuros e geniais, como o fictício Emmet Ray, de Woody Allen, em Sweet and Lowdown, aqui chamado de Poucas e Boas.

É portanto a sombra dessa improvável Pauline Anderton que joga seu mistério sobre a trama de A Quase Verdade. Quem foi essa mulher, que morreu prematuramente? Seus parentes ainda estão por aí? Gente que a conheceu, que tocou com ela, que a ouviu? Há pistas e elas irão levar a caminhos inesperados.

Ao mesmo tempo, Sam Karmann (que além de diretor faz também Thomas, o marido perfeito da apresentadora Anne) procura manter um registro mais leve na condução do filme. Não deixa que ele entre de cabeça nesse tema do mistério, o que resultaria em outro projeto. Ele faz com que esse ponto obscuro se mantenha lá atrás, latente, movendo os personagens. Mas estes têm muita coisa a fazer à frente da cena.

E o que seria esse tema principal, que toma à frente do subtema da cantora de jazz? Justamente a ciranda amorosa dos personagens. Anne é o pivô, mas em torno dela se movimentam personagens igualmente conflitados. Marc (Cluzet) é o próprio arrivista, às voltas com seus negócios, sem tempo para a mulher jovem e grávida, e também um tanto bobinha. Vincent, o escritor, paira um pouco acima de todos, com sua presença discreta e refinada. Thomas, o marido de Anne, é um exemplo de low profile. E será o autor de uma frase que impregna o espírito do filme. Querendo confessar suas infidelidades, Anne diz que ele não sabe tudo sobre ela. E Thomas responde: ‘Talvez seja melhor assim.’

Esse é um ponto interessante do filme, e que une o tema ao subtema – o dos limites da verdade. Existe algo nos relacionamentos que não deve ser dito, apesar das fantasias adolescentes da transparência total. Em algum momento um dos personagens diz que jamais um casamento duraria 20 anos se os cônjuges dissessem tudo um ao outro. A mesma conclusão pode ser aplicada ao mistério cercando a cantora morta. Até que ponto desnudar toda a história contribui para alimentar o mito ou para destruí-lo? São coisas da vida: às vezes para preservar alguma coisa, ou algum relacionamento, é bom saber até onde avançar e onde parar.

A Quase Verdade tem disso. Em seu formato simples, toca em algumas questões importantes, de forma agradável, sem nunca ser pomposo, teórico ou retórico. Emana dele uma sabedoria simples da vida civilizada, da vida da inteligência, aquela que a melhor Europa traduz, com seus séculos acumulados de cultura e tradição, e que não precisam ser ostentados.

Como diretor, Sam Karmann procura ser igualmente discreto. Não tenta aparecer, não promove nenhum malabarismo técnico desnecessário, evita movimentos de câmera exibicionistas. Quis fazer um filme simples (mas não simplista) e conseguiu. Muito desse rendimento se deve ao elenco. Karin Viard é capaz de passar do registro cômico ao dramático com muita naturalidade. Cluzet compõe um cafajeste conflitado com toda competência. E a elegância de Dussollier é conhecida de todos os que amam os filmes de Alain Resnais, de quem ele é um dos atores favoritos. E mesmo o próprio Karmann, sóbrio como seu personagem Thomas, não compromete em suas poucas aparições. Essa afinação do elenco é um trunfo.

Mas o comentário ficaria incompleto se, dessa orquestra afinada, não destacássemos o duo formado por Karin e Dussollier. Há uma atuação muito sutil do par, em seu jogo de nuances. Quando Karin é extrovertida, Dussollier se retrai. Onde ela joga aberto, ele esconde as cartas. Quando ela pensa que o tem em suas mãos, ele finalmente mostra um último trunfo. Ou não seria o último? Também no relacionamento desse par de ocasião, a verdade só pode ir até certo ponto. Passando dele, ela se torna farsa. E isso é tudo o que esse filme sutil faz questão de evitar.

(Caderno 2, 18/1/08)