A ‘Quase Memória’ de Ruy Guerra
As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

A ‘Quase Memória’ de Ruy Guerra

Luiz Zanin Oricchio

26 de novembro de 2014 | 18h29

Vendo algumas sequências filmadas no Grajaú

Vendo algumas sequências filmadas no Grajaú

RIO – Uma gráfica no bairro de Grajaú, Zona Norte do Rio de Janeiro, serve de cenário ao novo filme de Ruy Guerra, o grande diretor de clássicos do cinema brasileiro como Os Cafajestes e Os Fuzis. Lépido aos 83 anos, Ruy adapta agora o romance autobiográfico de Carlos Heitor Cony, Quase Memória, bestseller que vendeu 400 mil exemplares, ponto fora da curva no rarefeito panorama editorial brasileiro.

O galpão do Grajaú imita a gráfica do outrora poderoso Jornal do Brasil, onde trabalhava um dos personagens da história, o crítico teatral Mario Flores (Júlio Adrião). Ele visita o local onde o jornal é impresso e entrega ao gráfico Gomes sua crítica mais recente, sobre um espetáculo de Pirandello em cartaz no Rio. Conversa com o tipógrafo, interpretado por Tiago Justino, o Gregório Fortunato de Getúlio, de João Jardim. Mario conta que recebeu uma homenagem, e foi aplaudido durante três minutos inteiros ­­–“Um minuto para cada década dedicada ao teatro”, diz orgulhoso para o funcionário. O crítico nem desconfia que é seu último texto para o JB, de onde será despedido para dar lugar à nova geração de profissionais.
O crítico é um personagem secundário nessa história imaginada (e vivida) por Cony para dar conta de seu relacionamento com o pai, jornalista como ele. O pai, conforme lemos no romance, era um tipo exótico e exuberante, que despertava tanto a admiração como certa vergonha no filho.

Na verdade, Ruy Guerra, ao adaptar, subverteu a narrativa de Cony. O filme é um antigo projeto que, por razões de produção, só agora pode ser realizado. Ao longo dos anos, o projeto sofreu várias modificações e foi sendo depurado. Depois de vários tratamentos de roteiro, Ruy chegou a uma situação ideal para ele, que se preocupa com a questão da memória humana. Desdobrou o personagem de Carlos (Heitor Cony, claro) em dois e fez com que o jovem Carlos e o velho Carlos mantivessem um diálogo imaginário. Um, o jovem, é vivido por Charles Fricks; o outro, mais velho, por Tony Ramos.

Apenas depois de bolar o encontro do Carlos jovem com o Carlos velho Ruy Guerra descobriu que o escritor Jorge Luis Borges já havia feito o mesmo em seu conto O Outro (de O Livro de Areia). No texto, um jovem e inexperiente Borges conversa com o Borges maduro, sábio e desiludido em um banco de jardim de Genebra. “Perdi a ocasião de ter o filme inspirado em Borges”, ri o diretor, “Mas já que ele fez coisa semelhante, fica como espécie de antecessor desse recurso”.

Há também outra particularidade nesse encontro de Carlos consigo mesmo. Ele se dá em dois momentos especiais da vida brasileira. Dois momentos trágicos, a bem dizer. No dia 13 de dezembro de 1968, quando é decretado o Ato Institucional número 5, Carlos jovem tem 44 anos. Dia 1º de maio de 1994,quando morre em acidente o piloto Ayrton Senna, Carlos, velho, tem 70 anos. Esse dois momentos são comprimidos nessa conversa entre os dois Carlos que se dá entre as seis horas da tarde de um dia e seis da manhã de outro. “É como uma bolha do tempo no qual eles entram e se encontram”, diz o cineasta, um amante dos paradoxos temporais e leitor de Física Contemporânea. Ruy, anos atrás, em conversa comigo, disse que dava preferência à leitura de obras científicas às de ficção. “A Física é mais imaginativa”, disse.

Desse modo, e com as alterações produzidas no texto original, pode-se esperar de Quase Memória uma obra cinematográfica pouco usual, como sabem os que viram Estorvo (2000) e O Veneno da Madrugada (2006), dois filmes mais recentes de Ruy Guerra. O primeiro adaptado de um romance de Chico Buarque e o segundo de uma obra menos conhecida de Gabriel García Márquez, de quem Ruy era amigo. De Chico, sabemos, Ruy, além de amigo, é parceiro em músicas como Tatuagem e Fado Tropical. Nada menos.

“Gosto de trabalhar com a invenção da linguagem cinematográfica”, diz Ruy. Trocando em miúdos ,isso significa que existe mais de uma maneira de contar uma história e que ela pode ter início, meio e fim, mas não necessariamente nessa ordem, como dizia Godard. Quer dizer, também, que o cinema pode ter, como sempre, o público como destinatário, mas nem por isso precisa deixar de ser sofisticado. O padrão visual de Quase Memória, por exemplo, é inspirado na pintura, embora Ruy não deseje insistir nisso, “para não parecer pedante”.

Ora, pelas cenas foram que vistas quando filmadas e por outras, anteriores, mostradas com exclusividade ao Estado, pode-se deduzir que Quase Memória nada terá de pedante. Pelo contrário. Essa história de encontro do homem consigo mesmo, e o resgate da relação complicada com o pai, aparece numa linguagem em que ternura não exclui certo tom de comédia. Às vezes, com o registro subindo ao farsesco, como se vê em algumas cenas já feitas com o grande ator baiano João Miguel, no papel de Ernesto Cony, o pai. Outro cujo trabalho se dá em chave acima do naturalismo é Antonio Pedro, como o operístico Giordano. Outro grande trunfo no elenco de Quase Memória é Mariana Ximenes, como Maria. Em todo caso, o tom não é melancólico, “porque a memória é sempre farsesca”, diz Ruy.

Depois de filmar uma semana no Rio, Ruy Guerra e equipe mudam-se para a mineira Passa Quatro. Depois, a trupe desloca-se para Barra do Piraí, no interior fluminense. As filmagens duram até dia 16 de dezembro, quando o material começa a ser montado e finalizado. Ruy espera ter em mãos a primeira cópia até março de 2015. Como será o filme, só o tempo (sempre ele) dirá.

 

Box. Projetos

Quando lhe dizem que anda se especializando na adaptação de obras literárias, Ruy Guerra tem a resposta na ponta da língua: “Tenho três roteiros originais, prontos para serem filmados”. Os três parecem fascinantes.

O primeiro chama-se Fernando Pessoa – o Fingidor, no qual a história do poeta português é contada por seus heterônimos. O segundo é O Tempo e a Faca, uma história de vingança no Nordeste. O terceiro chama-se Palavras Queimadas e parece um melodrama bastante inusitado. Homem casado tem uma amante. As duas mulheres habitam em casas exatamente iguais, ambas pertencem ao signo de Escorpião. O drama se dá quando o homem descobre que uma delas (mas não sabe qual) está tramando a sua morte.

 

Box. O diretor

Ruy Guerra nasceu em Maputo, capital de Moçambique, em 1931. Vive há 50 anos no Brasil, mas é cidadão do mundo. Estudou cinema na França, morou em Havana, Paris, Lisboa. No Brasil, provocou escândalo com Os Cafajestes, sua estreia em longas, com o primeiro nu frontal do cinema brasileiro, o de Norma Bengell. É autor de Os Fuzis, obra-prima do Cinema Novo e considerado parte da “Sagrada Trindade” do movimento, junto com Vidas Secas e Deus e O Diabo na Terra do Sol.

Ruy foi amigo de Gabriel García Márquez e com ele trabalhou, adaptando para o cinema Erêndira e A Bela Palomera. Foi parceiro em músicas de Chico Buarque (em especial as da peça Calabar, proibida pelo regime militar), Edu Lobo, Francis Hime e outros. De Chico Buarque, adaptou Estorvo para o cinema e radicalizou a proposta estética do autor.

Ruy é considerado por críticos, atores e colegas diretores como um dos mestres incontestes da arte cinematográfica. Cultor da palavra, foi durante vários anos cronista do Caderno 2. Reuniu seus textos preferidos no livro Vinte Navios, editado pela Francisco Alves.

 

Box. Nepotismo do bem

 

Na equipe de Quase Memória “impera o nepotismo”, como ele diz , aos risos. A produtora é Janaina Diniz Guerra, sua filha com Leila Diniz. Dandara, filha do seu casamento com Claudia Ohana, assumiu o posto de assistente de direção do filme. Seu filho Adriano é o microfonista. E Bruno Laet, que assina o roteiro de Quase Memória com o próprio Ruy e Diogo Oliveira, é marido de Janaína. Tudo em família.

Tudo o que sabemos sobre:

Carlos Heitor ConyRuy Guerra