As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

A quadratura do círculo *

Luiz Zanin Oricchio

21 Janeiro 2014 | 09h14

Amigos, achei engraçada uma reação que percebi em mim e em vários conhecidos, todos torcedores empedernidos e que costumavam ficar à míngua no começo de cada ano, até respirarem de novo com o início dos campeonatos estaduais. Sim, esse tempo entre o final do Campeonato Brasileiro e o início dos estaduais em geral era de fome brava, penúria total para os fanáticos do futebol. Agora, não. Começaram os estaduais e até parece que não havíamos sido submetidos ao rigor do jejum habitual.

E, de fato, não fomos. O futebol continuou a fazer parte do nosso dia a dia mesmo durante as férias. Primeiro, pelo imbróglio jurídico do final do Brasileiro, que nos ocupou durante várias semanas e continua a nos ocupar à medida que as manobras de tapetão se sucedem e tentam contrapor-se umas às outras. A última é a suposta proposta da CBF de adiantar dinheiro à Lusa, desde que ela se conforme com a Segunda Divisão. Não quero acreditar nisso Se confirmado, será a vergonha final e o futebol brasileiro deve entrar com urgência em regime falimentar. Fim do asfalto.

Mas além da atração perversa do tapetão, a transmissão de jogos internacionais nunca foi tão intensa e, mesmo quem prefere o futebol nacional, teve a Copa São Paulo para se divertir. Em uma palavra: o futebol não para. Não temos mais a antiga fome de bola porque na verdade ela nunca para de rolar. É que o, permitam-me usar essa expressão da moda, o “modelo de negócio” do jogo mudou. Para que o capital a ele associado não se detenha, a bola não pode parar. Esse será o principal desafio a ser vencido pelo pessoal do Bom Senso FC. Eles querem menos jogos. Menor número de partidas significa menos transmissão pela TV, menos venda de ingressos, menos exposição de marcas, tudo isso redundando em redução de lucros. Alguém vai bancar a perda em nome da qualidade? Não a CBF, por certo, ou as federações, ou mesmo os clubes, todos cúmplices na regra da exploração máxima do produto, mesmo com a qualidade deteriorada e desgastada.

E assim, mesmo sem fome, pudemos ver o início dos estaduais e, em nosso caso, do Campeonato Paulista, disputa tão tradicional que começou em 1902, quando nem a Fifa existia, como lembrou um locutor de TV de um dos jogos do fim de semana.

A tradição é importante, mas não é tudo. Houve tempo, nem tão distante assim, em que os campeonatos estaduais eram os mais importantes para a torcida. Claro, as disputas entre Estados, como o Rio-São Paulo, também valiam e muito, mas nada superava nossas rivalidades locais. Eram, como em parte são até hoje, as mais fervorosas, as que produzem discussões ou gozações mais intensas nos botecos ou no escritório. Uma coisa é vencer um rival de outro Estado ou de outro país. Diferente é ganhar do seu vizinho. Esse é o sabor inigualável, a fina iguaria. Por isso, digam ou que disserem, um Corinthians x Palmeiras é um clássico dos clássicos, por exemplo. Esse, o charme discreto dos Estaduais.

Acontece que os Estaduais foram perdendo importância relativa em razão daquele mesmo motivo que nos impede de ter fome de bola e limita as ações do Bom Senso – a multiplicação de campeonatos, torneios, jogos, compromissos, etc. O negócio futebol cresceu de forma espantosa. E, com os territórios ocupados, acabou sobrando pouco para os Estaduais. É preciso acomodá-los num calendário atravancado pela Copa do Brasil, Libertadores, Sul-americana, Campeonato Brasileiro e mais alguns torneios de possam surgir por aí. Sem falar que este ano tem Copa do Mundo no Brasil. Coitadinhos dos estaduais, espremidos num calendário em que sobram compromissos e faltam datas.

Qual a única solução, até mesmo para preservá-los? Encontrar fórmulas mais enxutas. Mas essa decisão esbarra em interesses políticos, pois é preciso manter os clubes “pequenos” em atividade pelo maior tempo possível. Este ano, premida pela Copa do Mundo, a Federação Paulista inventou fórmula esdrúxula, em grupos, na qual cada time joga com todos os outros, menos com os do seu próprio grupo. Mais ou menos a quadratura do círculo.

Coluna publicada originalmente na seção de Esportes do Estadão