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Uma magnífica saída de cena

Luiz Zanin Oricchio

06 de junho de 2008 | 21h00

Amigos, este é o texto que escrevi para o catálogo da mostra Robert Altman. Tenho um carinho especial para com A Última Noite. Sei bem que não é o maior Altman. Mas, enfim, que diabos, é o último Altman.

Bom final de semana a todos.

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No Brasil, ficou sendo A Última Noite. No original inglês, o adeus de Robert Altman (1925-2007) leva o nome de um famoso programa de rádio – A Prairie Home Companion, transmitido de St. Paul, em Minnesota.
Roteirizado pelo próprio apresentador do programa, Garrisson Keillor (que interpreta a si mesmo no filme), e dirigido por Robert Altman, A Última Noite, seria, aparentemente, apenas uma visita aos bastidores de um show de auditório um tanto antiquado e com os dias contados. Na mão de Altman, converte-se numa, por incrível que pareça, em bem-humorada reflexão sobre o tempo que passa, a finitude e a morte. Acrescente-se a isso o fato de que este foi o último filme dirigido pelo genial cineasta de Nashville, Short Cuts – Cenas da Vida e O Jogador, e então teremos uma espécie de testamento, um balanço leve — mas nem por isso menos profundo — da existência, que Altman, como poucos, conseguia fazer.

Na história, Garrisson é o apresentador (que também canta, faz piadas e comerciais), Lily Tomlin e Meryl Streep são as Johnson Sisters, Yolanda e Rhonda. Faz parte da trupe a filha de Yolanda, Lola (Lindsay Lohan) e dois caubóis gozadores e super-divertidos, Dusty (Woody Harrelson) e Lefty (John C. Reilly). Kevin Kline é Guy Noir, um detetive particular que, por falta de grana, faz a segurança do show. Tommy Lee Jones interpreta um diretor da companhia que comprou o antigo Teatro Fitzgerald para derrubá-lo e construir um estacionamento no lugar. Virgina Madson faz uma espécie de anjo da morte, que vem buscar alguém durante o espetáculo.

Altman vai do palco ao bastidor com a costumeira classe. Os planos são longos e, não raro, a câmera acompanha esse trajeto da coxia ao público numa única tomada. Existe uma idéia de continuidade presente num estilo de filmar que evita os saltos e os cortes bruscos. Fluidez e ritmo – essa combinação predomina nesse filme que, como uma música de blues, vai envolvendo o espectador numa nuvem de doce melancolia e estranha felicidade. Sim, porque, mesmo sendo meditação sobre a morte, A Última Noite nunca perde o sentido do humor. Passa por ela uma atmosfera levemente erótica e calorosa entre as pessoas. E, quando o fim é inevitável (tanto a suspensão do programa quanto o término da vida), é melhor enfrentar essas contingências com serenidade filosófica. Por isso, quando o anjo termina por levar, bem no meio do espetáculo, o artista mais veterano (L.Q. Jones), não o faz sem apresentar algumas palavras de consolo à sua amante: “Calma, a morte de um homem velho não é nenhuma tragédia”.

Podemos imaginar Altman, com sua capacidade de auto-ironia, dizendo essas palavras para si mesmo, já que veio a morrer no ano seguinte à estréia do filme. Em sua saída de cena, ele se mostra à altura do próprio mito. Contempla o fim sem qualquer amargura. Talvez com alguma galhofa e uma ponta de melancolia, para usar duas palavras de Machado de Assis em seu maior romance, Memórias Póstumas de Brás Cubas. Aliás, Machado e Altman teriam muito a dizer um ao outro, se o tempo e a geografia não os houvessem separado. Elegância, ironia e senso de profundidade formariam seu idioma comum.

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