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A Ponte caiu?

Luiz Zanin Oricchio

29 de abril de 2008 | 11h06

Tudo leva a crer que sim. A oportunidade da Ponte Preta era fazer o resultado no primeiro jogo, em seu campo, e depois tentar administrar a vantagem no Parque Antártica. Isso, na teoria. Porque, na prática, todo mundo sabia que o Palmeiras tinha a vantagem desde o início. Time melhor, treinador que faz a diferença, enorme tradição em títulos, etc. E a Ponte entrava desfalcada do seu meio de campo criativo, sem Elias e Renato, e mais o zagueiro César. Era muita coisa para superar diante de um adversário que é mesmo superior. Sabia-se que, apesar do fator campo, o Palmeiras era favorito, mesmo para esta primeira partida. E assim foi. O próprio técnico Sérgio Guedes admitiu que seu time, sem armadores, se tornou previsível. Time previsível é presa fácil na selva do futebol.

Esses jogadores devem voltar para o segundo jogo. Mas então, ao que tudo indica, será tarde demais. E o Palmeiras terá saído de uma fila de nove anos sem títulos. Começa a encostar no Corinthians em número de títulos paulistas conquistados. Luxemburgo, com sete campeonatos paulistas, chega perto do recordista, o velho Luis Alonso Perez, o Lula, que tem oito, do tempo em que comandava o Santos de Pelé & Coutinho.

Talvez com o time titular em campo a Ponte ofereça um espetáculo melhor. Dificilmente reverterá a vantagem do Palmeiras, que agora é de dois gols. Mas poderá vender caro a derrota e terminar honrosamente com o título de vice, quem sabe carimbando, por antecipação, a faixa do campeão. Pode vencer o campeonato? Pode. Mas então o jogo entraria para a história como uma das grandes catástrofes do futebol contemporâneo. Do ponto de vista palmeirense, é claro. Para a Ponte, seria a maior façanha da sua história.

Em condições normais de temperatura e pressão, o Palmeiras vence também o segundo jogo e começa com o pé direito seu trabalho de reformulação de mentalidade. Com Luxemburgo à frente e uma parceria forte na retaguarda, o Palmeiras volta a ser aquele time temido, como é de sua tradição desde a antiga Academia até a era Parmalat. Nos últimos anos, os rivais se acostumaram a ver no Palmeiras uma espécie de irmão mais fraco, meio provin ciano, às vezes até meio folclórico com seus times de jogadores medíocres e dirigentes arcaicos. Parece que esse tempo passou, embora os ares do passado às vezes retornem com gases misteriosos no vestiário e não menos insondáveis apagões no estádio – como lembrou Ugo Giorgetti em sua deliciosa coluna de domingo.

Do lado da Ponte: mesmo que não ganhe o título, como tudo faz crer, fica com saldo positivo no banco. Montou um belo time, de futebol vistoso e eficiente. Se tivesse na reta final a pegada que teve no início, talvez a história fosse diferente. Gostei do trabalho do técnico Sérgio Guedes, uma cara nova em meio a esses figurões chatos, presunçosos e mal-humorados. Montou bem o time e motivou de maneira adequada os jogadores. Falou sempre em tradição e na força da camisa de um clube que, se não contabiliza títulos, tem muito lastro acumulado – nada menos que 107 anos de história.

Num mundo melhor seria possível pensar que a Ponte Preta iria conservar seus principais jogadores e se reforçar ainda mais para chegar aos títulos que ainda não tem. Na vida real, o mais provável é que os destaques saiam para clubes maiores, talvez até para o exterior, e o trabalho tenha de ser começado do zero novamente. Os clubes brasileiros e, em especial, os mais fracos do ponto de vista econômico, são obrigados a reinventar a roda a cada temporada.

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