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A política e as palavras

Luiz Zanin Oricchio

11 de março de 2010 | 13h31

Política vem de polis. Quer dizer, a cidade, o bem comum, o país e a arte de administrá-los. Como quase tudo, vem da Grécia. Não esta, atual, atolada em dívidas e com capacidade de colocar tanto o euro como a Europa em crise. Vem daquela Grécia antiga, de Péricles, Sófocles, Sócrates e Platão.

Qualquer estudante de filosofia sabe da importância que tinha a palavra na condução dos negócios da polis. Tudo era discutido em praça pública – no ágora. E, por isso, a retórica, a capacidade de falar bem e convencer indecisos e contrários, era prezada como grande arte. Não havia político que não fosse afiado com as palavras. Isso, quatro ou cinco séculos antes de Cristo, época de ouro da Grécia, que é tida como berço da civilização ocidental.

Dando um salto no tempo de 2.500 anos – passando, sem transição por Roma, o feudalismo, a renascença, a idade moderna, o capitalismo e a pílula anticoncepcional – chegamos à atualidade. É quando ouvimos falar que a política, como a arte de convencer o próximo a nos dar o poder, entrou em crise. Em desuso, quase. E foi substituída pela economia, quer dizer, pelas grandes corporações, que são quem governa de fato. O mundo seria regido pelo dinheiro e pelo interesse em ganhá-lo e mantê-lo, sendo a política uma atividade subsidiária e até certo ponto inútil, ainda mais se levarmos em conta o seu custo – financeiro e moral – para a sociedade.

Mas uma observação imparcial nos mostrará que a velha política – no sentido grego do termo – continua presente entre nós. E não dá mostras de que irá morrer tão cedo. Se não temos no Brasil um orador digno de um Péricles (na verdade, ele não existe em lugar nenhum do mundo), nem por isso as palavras perderam sua importância e eficácia entre nós.

Basta ter olhos para ver (e ler) e ouvidos para escutar. Vejam só, principalmente em ano eleitoral, como as facções rivais prestam a máxima a atenção ao que dizem seus adversários – não para aprender com eles, é claro, mas para flagrar-lhes algum delito verbal. Deslize que, naturalmente, poderá ser usado em seu favor e contra esse adversário. Em boa parte, apesar de podermos suspeitar dos interesses econômicos embutidos e bem escondidos, a nossa política se resume a torneios verbais. Mais elaborados ou mais toscos, segundo os interlocutores do momento.

Não, meus amigos, a política, como arte da retórica, continua viva e sã entre nós. Podemos nos queixar da qualidade dos atores que ocupam o palco. Mas o velho teatro sobrevive. Talvez com alguns golpes baixos que Péricles desconhecia, mas em essência é o mesmo.