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A política de Drummond

Luiz Zanin Oricchio

22 de outubro de 2006 | 19h47

Ando lendo devagarzinho O Observador do Escritório, diário de Carlos Drummond de Andrade, agora reeditado pela Record. É uma preciosidade de lucidez. Cheguei ao ano de 1945, quando Samuel Wainer oferece ao poeta uma coluna diária de opinião política no jornal Diretrizes. Drummond hesita. E passa a refletir sobre um tema comum a intelectuais: o difícil trabalho de ser um homem de pensamento e intervenção ao mesmo tempo. Se você, como eu, anda cansado do bestialógico político do nosso tempo, leia esse trecho:

“Posso entrar na militância sem me engajar num partido? Minha suspeita é que o partido, como forma obrigatória de engajamento, anula a liberdade de movimentos, a faculdade que tem o espírito de guiar-se por si mesmo e estabelecer ressalvas à orientação partidária. Nunca pertencerei a um partido, isto eu já decidi. Resta o problema da ação política em bases individualistas, como pretende a minha natureza. Há uma contradição insolúvel entre minhas idéias, ou o que suponho minhas idéias e talvez sejam apenas utopias consoladores, e minha inaptidão para o sacrifício do ser particular, crítico e sensível, em proveito de uma verdade geral, impessoal, às vezes dura, senão impiedosa. Não quero ser um energúmeno, um sectário, um passional ou um frio domesticado, conduzido por palavras de ordem. Como posso convencer a outros , se não convenço a mim mesmo? Se a inexorabilidade, a malícia, a crueza, o oportunismo da ação política me desagradam, e eu, no fundo, quero ser um intelectual político sem experimentar as impurezas da ação política? Chega, vou dormir.”

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