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A poeira do tempo: Angelopoulos

Luiz Zanin Oricchio

28 de outubro de 2009 | 09h06

Segunda parte da trilogia de Theo Angelopoulos sobre as raízes da Grécia no século 20, A Poeira do Tempo traz de volta algumas das marcas registradas desse diretor. A saber: um apurado senso plástico, que torna a feitura de cada plano um trabalho de pintor; uma fotografia igualmente “estética”, mas que alguns chamam de estetizante; a busca do sentido histórico nas raízes ancestrais, não raro em elementos impregnados da mitologia.

Aqui temos um cineasta americano (Willem Dafoe) de ascendência grega e que realiza um filme contando a história de sua família. A narrativa se desdobra entre vários tempos e países, da Grécia à antiga União Soviética, passando pela Itália, Alemanha, Canadá e Estados Unidos. Remonta à Segunda Guerra Mundial, passa pela Guerra Fria e traz a história até a contemporaneidade, ou seja, até a era iniciada com a queda do Muro de Berlim. Ambicioso, espraia-se por um naco considerável daquele que o historiador britânico Eric Hobsbawm chamava de “breve século 20”, iniciado, para ele, com a Primeira Guerra e encerrado com a simbólica queda do Muro, o fim do conflito entre as superpotências com a vitória de um dos lados.

Esse foi um espaço de tempo dramático para a humanidade. O século 20 teve de enfrentar as duas grandes guerras, várias tiranias, ações imperialistas e ilusões perdidas. Tudo o que somos hoje o devemos (para o bem ou para o mal) a essa longa tragédia de um tempo histórico acelerado e não raro ensandecido. Angelopoulos busca algum sentido nesse caos. E o faz como artista: não teoriza, porém encena a partir de seus sons, imagens e personagens. Personagens que são encarnados por um elenco multinacional do cinema dito de arte: além do norte-americano Dafoe, o alemão Bruno Ganz e os franceses Michel Piccoli e Irène Jacob.

Para além dessa ambição de compreensão histórica, há no cinema de Angelopoulos essa busca do humano em sua complexidade. No caso, o diretor trabalha com o tempo (e também com o espaço) da memória. Sem ser proustiano, sabe que se move na região dos fragmentos. Lembranças não são coisas, nem são fatos. São a maneira como pessoas e povos reelaboraram aquilo que ficou para trás. Voltar-se para elas significa trabalhar com restos, progredindo à maneira dos arqueólogos, tentando imaginar como seria o todo a partir dos fragmentos que sobreviveram à ação do tempo, dos terremotos, incêndios e saques.

Por isso mesmo o seu cinema se move em planos sequências que se aproximam de forma lenta dos seus “objetos”, muitas vezes sem mostrá-los por completo. Porque há opacidade na história das gentes e dos povos. Por isso também é um cinema da névoa, porque enxergamos pouco e muitas vezes alcançamos o máximo de lucidez quando perdidos em meio à neblina. É um cinema lindo, intenso, por vezes angustiante e enigmático. Atravessamos esses filmes como quem atravessa um sonho. Vida é sonho, nas palavras de Calderón de la Barca.

(Caderno 2, 28/10/09)

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