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A pimenta que faltava *

Luiz Zanin Oricchio

26 de novembro de 2013 | 10h00

Para quem sentia falta de uma pimenta para o final deste campeonato insosso, ei-la que chega, ameaçando, pelo excesso, desandar de vez o sabor do prato. Refiro-me, claro, à agora já famosa frase de Júlio Baptista, do Cruzeiro, ao zagueiro vascaíno Cris: “faz logo outro gol, pô”. Pela leitura labial, a frase é inequívoca. As interpretações são múltiplas. O próprio Júlio Baptista já declarou em uma rede social sua total inocência no caso. Jamais participaria de um esquema de facilitação de resultado em favor do Vasco. Acredito nele.

Todos acreditam, porque é um ótimo rapaz. Acontece que os clubes que se julgam eventualmente prejudicados, como Fluminense e Portuguesa, prometem não deixar barato. O próprio STJD já declarou estar atento ao caso. É mesmo grave? Ou estaria sendo armada uma tempestade em copo d’água por pura falta de assunto?

Há duas maneiras, pelo menos, de ver a questão. Por um lado, poderíamos dizer que Júlio Baptista perdeu uma excelente oportunidade para calar a boca, o que evitaria toda essa polêmica, talvez estéril. Por outro lado, nós mesmos, e certamente a torcida, temos nos queixado de que os jogadores cada vez mais perdem a espontaneidade em suas declarações e em seu comportamento, tanto fora como dentro de campo. Cada vez mais sentem-se dependentes dos conselhos dos media trainers, os especialistas que os ensinam a dar entrevistas incolores e falar de maneira anódina de modo a não comprometê-los em nada. Numa época em que imagem é dinheiro, preservá-la é ótimo investimento. Por isso as frases que dizem são cada vez mais chatas e os comportamentos para o público mais previsíveis. Tanto assim que os cronistas, e o distinto público, vibram quando algum boleiro dá sinal de vida e exibe algum comportamento menos condicionado pelo mercado.

O caso poderia também ser tratado como mera história de boleiros. O próprio Cris admite ter pedido ao adversário que “amaciasse”. Afinal, o Cruzeiro já ganhou o ano. Levantou a taça e encontra-se, espiritualmente, em férias. Já para o Vasco, o jogo era vital. Significava descer de vez ou ainda ter chances permanecer na elite. Nada menos. Júlio Baptista respondeu a Cris desta maneira, o que gerou o caso. Mas aí é que entra toda a questão: devemos tomar sua declaração ao pé da letra? Literalmente? Ou deveríamos nela ver uma ironia, ou mesmo um sarcasmo, saído no calor de um jogo, mesmo que não decisivo para um dos adversários.

Porque uma coisa é dizer “vai lá e marca outro gol”, como se fosse um convite para ser levado a sério. Como se dissesse: vai lá que a casa é sua. E outra é a mesma frase, dita em outro tom, que poderia ser traduzida assim: “vocês não querem se livrar do rebaixamento? Ora, tentem fazer sua parte, se forem capazes e competentes para isso.” O jeito como falamos uma frase, como a colocamos no contexto, nossa entonação, a expressão facial e os gestos que a acompanham determinam seu sentido, que pode ser oposto ao literal. Na vida prática todos sabemos disso. Sabemos usar a linguagem, sem nos darmos conta.

Isso não significa que não haja mal-entendidos. A pessoa fala com certa intenção e a outra percebe de maneira diferente. Muita briga já aconteceu por causa dessa dissintonia entre emissor e receptor. Muito casal já se separou. E, claro, algumas guerras aconteceram porque alguém falou alguma coisa em determinado momento e a outra parte, exasperada, entendeu conforme o seu fígado. Daí o cuidado com que homens públicos bem sucedidos costumam utilizar o vernáculo. Sabem que tudo o que dizem poderá ser usado contra eles, ou produzir efeito diferente do que pretendiam.

Isso acontece também no futebol, como no caso do Júlio Baptista e do Cris. Como é difícil, senão impossível, saber o que ele realmente “quis” dizer, só nos resta acreditar em sua palavra. Mas confiança no próximo é a mercadoria mais rara hoje em dia, é ou não é?

 * Coluna publicada no Esportes do Estadão 

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