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A parte que cabe aos jogadores

Luiz Zanin Oricchio

24 de junho de 2008 | 10h16

Havia suspeita de que o time do Palmeiras faria corpo mole devido ao atraso de salários. Engano. O Palestra foi a São Januário e enfiou dois gols no Vasco. De outro lado, havia esperança de que o Santos mostraria alguma coisa depois de uma intertemporada de treinos começando às 7h da manhã. Outro engano. O Santos foi massacrado em casa pela frágil equipe do Goiás. Se houve corpo mole foi na Vila e não em São Januário.

Mérito de Vanderlei Luxemburgo, que soube manter o leme firme, mesmo nessa situação que sempre gera tensão em um elenco? Sim, provavelmente, mas apenas em parte. Culpa de Cuca, que não conseguiu dar padrão mínimo de jogo até agora, e nem mesmo concedeu à torcida o conforto de um time lutador? Sim, mas em parte.

Falando nisso tudo, mais uma vez toco nesse assunto – a excessiva importância que damos aos técnicos, na vitória como na derrota. Por isso eles se transformaram em semideuses cujas palavras são ouvidas como a revelação das tábuas das leis. E também por isso são transformados com tanta facilidade em bodes expiatórios.

Tudo isso também está acontecendo na seleção. Claro, Dunga nem de longe mostra capacidade ou currículo para dirigir a seleção brasileira. Seus defeitos são tão óbvios que provoca tédio lembrá-los. Mas, enfim, será que suas limitações tão evidentes explicam toda a mediocridade dessa seleção? Ou devemos buscar as razões do futebol pífio exatamente naqueles que o praticam em campo? Por exemplo, será que ainda colam desculpas como as que dizem que eles vêm da desgastante temporada européia? E a turma que anda correndo feito louca na Eurocopa, onde joga?

Então vamos parar com essa conversa fiada, que cai tão bem junto às torcidas ditas organizadas. Não adianta trocar técnico se o elenco não tiver qualidade e fibra. Sem esses dois quesitos não se faz um time. São condições básicas. Não estou aqui subestimando o papel de um técnico, que deve agir como planejador tático, organizador e, eventualmente, motivador do grupo. Desde que o grupo se preste a ser motivado, naturalmente.

Não foi Luxemburgo quem encarou sozinho o Vasco em casa. Foram os jogadores do Palmeiras que, mesmo submetidos a essa circunstância inaceitável no futebol profissional, mostraram que estão procurando alguma coisa maior para o clube. E, no fim das contas, para eles mesmos.

Já na seleção, o que se nota é o profundo desinteresse em vestir aquela camisa amarela que, em outros tempos, foi o sonho maior de todo garoto que um dia chutou uma bola na rua. Não mais. Parece que a seleção passou a ser objetivo secundário, um tanto tedioso, uma obrigação a ser cumprida que os faz se deslocarem de seus paraísos europeus para esses chatíssimos e perigosos países do Terceiro Mundo onde tiveram a má sorte de nascer.

Em outra escala, é também o que se viu na Vila. Não sei se Molina, Tabata, Marcinho Guerreiro, Wesley, um dia deixaram o videogame de lado e pararam para refletir que estão vestindo camisas que já foram de um Pelé, de um Coutinho, de um Zito, de um Dorval, de um Pepe. Será que já ouviram falar nesses nomes? Será que sabem que, além de terem sido magníficos jogadores, eles também ralavam muito em campo?

Precisamos parar de transformar treinadores em heróis ou vilões. Vamos devolver aos jogadores a parte de responsabilidade que lhes pertence.

(Coluna Boleiros, 24/6/08)

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