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A parte (ainda) visível do iceberg

Luiz Zanin Oricchio

09 de julho de 2008 | 00h16

Não sei se a notícia é verdadeira ou especulação, mas todo o meio esportivo fala da hipotética proposta de 94 milhões de euros do Chelsea por Kaká. Quem vai dizer que é impossível? Afinal, o cofre de Abramovich parece mesmo sem fundo. E sabe-se lá de onde vem tanta grana. Aliás, ninguém quer saber, nem a torcida do Chelsea e muito menos a Grã-Bretanha, onde o russo mora e investe.

O fato é que, verdade ou especulação, com uma cifra dessa ordem ficamos aqui, nos trópicos, pensando que o que existe hoje não é apenas uma tremenda diferença econômica entre a Europa e os países exportadores de boleiros, como os da América do Sul e África. Não. O que há é algo diferente, mais grave e mais profundo – é o descolamento completo das cifras do futebol em relação ao mundo real.

Virou delírio. Não se trata de saber se Kaká, Cristiano Ronaldo ou qualquer outro jogador “vale” quase 100 milhões de euros. Nessa linha de raciocínio quanto não custaria um Garrincha? Zico? Maradona? Pelé? Inútil perguntar, porque não se trata mais de uma questão de qualidade, ou, pelo menos, não é apenas isso. É que os números são tão exorbitantes que parecem se referir a um capital do Banco Imobiliário, aquele joguinho que, em outros países, se chama Monopólio, creio. Dinheiro de fantasia, fabricado em fundo de quintal, sem limites, sem critérios, sem conseqüências. Concorrer com esse tipo de coisa já não dá mais pé. Nem hoje e nem nunca.

E outro fato – já que falamos deles – é que o futebol ficou à mercê dessa ilha da fantasia. É um cassino tão maluco que parece improvável arriscar-se nele, e muito menos confrontá-lo. Do nosso ponto de vista, parece um mundo de ficção científica, das altas finanças, movimentos de cifras feitos pelo computador, no mouse, à velocidade da luz, cercados de tramóias impensáveis, coisas assim.

E, no entanto, o mundo da bola, esse mundo concreto e esférico, está sujeito a tudo isso. Em certa medida, torna-se também essa coisa impalpável, enigmática, feroz, com a qual mal sonhamos a cada vez que entramos num estádio para ver uma simples partida entre dois times de carne e osso, onze para cada lado, bola redonda, duas traves, e só. Já não é mais só isso. Pelo menos a partir de certo nível, o jogo, em si, é apenas a parte visível do iceberg. Mas então o futebol deveria ir para as páginas de economia do jornal? Ou faria parte do noticiário policial, em certos casos?

Bem, acho que a nossa luta é exatamente essa – enxergar o futebol naquilo que ele tem de envolvente, belo e representativo, como jogo, sem deixar que desapareça atrás da cortina de fumaça do hipercapitalismo da bola. É um exercício de disciplina e até mesmo de abstração. Alternar nosso olhar entre o campo de jogo e tudo aquilo que o rodeia. Ignorar esse extra-campo seria um ato de alienação. Deixar que ele interfira demais no jogo seria matar a nossa paixão pelo futebol.

Por exemplo: ao analisar o atual momento do Campeonato Brasileiro não podemos esquecer que os times dependem do que vai sobrar depois da malfadada “janela européia”. O Brasil é como um supermercado onde eles vêm comprar baratinho aquilo de que precisam. Mas precisamos evitar que esse pensamento nos impeça de sentir a magia de um gol como o de Diego Souza. Somos, como diz o escritor uruguaio Eduardo Galeano, mendigos de um instante de beleza no futebol, venha ele de onde vier.

(Coluna Boleiros, 8/7/2008)

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