A outra arte de Kubrick
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A outra arte de Kubrick

Luiz Zanin Oricchio

04 de outubro de 2010 | 20h06

VENEZA

Em 1945 um rapaz de 17 anos levou uma foto à revista Look. Era a imagem da reação do dono de uma banca de jornais diante da notícia da morte de Roosevelt. A revista a comprou por US$ 25 e a publicou no dia 26 de junho de 1945. No ano seguinte, o jovem foi contratado e, a serviço da Look, bateu cerca de 12 mil fotos durante cinco anos. A exposição no Palazzo Cavalli Franchetti, à beira do Canal Grande em Veneza, reúne 200 dessas imagens. São magníficas. O nome do aprendiz de fotógrafo? Stanley Kubrick, que passaria anos lidando com imagens paradas antes de colocá-las em movimento e tornar-se o cineasta genial que conhecemos.

A mostra fica em Veneza até 14 de novembro, e é dividida em seções temáticas. Os blocos fazem um painel multifacetado dos EUA no pós-guerra, mas vão além da fronteira americana. Vão a Nazaré, vilarejo à beira-mar em Portugal. Há dois personagens principais nessa série – um casal americano em férias, acompanhados pelas lentes do fotógrafo. Mas é como se eles, de protagonistas, passassem a coadjuvantes diante das imagens que o artista vê. Surgem então os pescadores pobres, mulheres na lida diária, crianças puxando a rede de pesca. O assunto se impõe ao fotógrafo e ele o registra. E o faz com grande respeito pela população e seus costumes. Ressaltar a dignidade humana era o principal dever de um repórter fotográfico, segundo Henri Cartier-Bresson, o mestre de todos.

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Stanley Kubrick viaja como repórter fotográfico, mas, claro, seu foco de atuação recai sobre os Estados Unidos. Afinal, norte-americanos eram os dois, o fotógrafo e a revista. Interessava-lhes compor o painel de um país que saía da 2.ª Guerra Mundial vitorioso e otimista. Enquanto a Europa lambia suas feridas e dava início a uma penosa reconstrução, os Estados Unidos surgiam como a grande potência mundial. É ali, e em especial sobre a multifacetada Nova York do pós-guerra que Kubrick concentra seu olhar.

Esse painel vai desde o registro dramático do carro de transporte de presos em Nova York, visto do seu interior, com policiais e prisioneiros algemados como personagens, até o comovente acompanhamento de um menino engraxate pelas ruas da cidade. Essa sequência é exemplo acabado de história ilustrada. Vemos o garoto Mickey, de 12 anos, pelas ruas, contemplando um cartaz de cinema, com a família e sempre acompanhado de sua caixa de engraxate, com o preço do serviço estampado: 10 cents. Vemos o garoto trabalhando, mas também brincando, na aula, e dando de comer aos pombos do Bronx – tentativa, talvez, de alegoria do jovem Kubrick, que vê nas aves a imagem de liberdade a que o garoto talvez aspirasse, sem de fato ter.

Do mesmo tônus emocional se compõe a série dedicada ao circo, com seus trapezistas, homens fortes e equilibristas. Não parece ser um daqueles grandes circos, suntuosos, que proporcionam espetáculos inesquecíveis (e caros). É um pequeno circo, do tipo que existe em qualquer parte do mundo, e dos quais emana um suave tom de melancolia, de algo em via de extinção, com os dias contados. A lente de Kubrick parece bem sensível a essa circunstância. E também dedica atenção especial aos bastidores do espetáculo. Por trás do espetáculo e às vezes do glamour, existem as pessoas que se comportam como profissionais e preparam o show que irá encantar aos frequentadores. Da série, o que emerge não é tanto o clichê da magia do circo, mas o cotidiano dos artistas circenses.

O tom do registro já é outro quando o fotógrafo, sempre sob as ordens da revista que o emprega, se debruça sobre outros aspectos da vida social americana. Nesse caso, algo oposto à vida pobre do garoto engraxate ou o cotidiano do circo do interior – são as fotos suntuosas de uma das maiores universidades do mundo, a de Columbia, lá onde a elite vai estudar e reproduzir nova casta de poder. Aqui, as angulações são diferentes e registram o senso do poder da jeunesse dorée nova-iorquina, a nonchalance daqueles destinados a dirigir o mundo.

Adquire mais leveza ao captar a graça de outra vencedora, a precoce Betsy von Fürstenberg, bailarina aos 7 anos, modelo aos 14 em Paris, atriz aos 18. Uma graça de criatura quando dança, brinca num balanço, quando aceita o cigarro de um cavalheiro ou quando descasca prosaica banana num restaurante. Consciente de seu poder de sedução, posa na contraluz de uma janela, as longas pernas dobradas enquanto afaga um cachorrinho. Betsy sabia perfeitamente do efeito de sua presença sobre o olhar masculino e não esconde sua aura à objetiva de Kubrick.

Enfim, são fotos em si sensacionais. Mas a sua reunião, num conjunto coerente, vão além da mera fruição estética para o espectador. Abrem nova vertente de compreensão da obra de um dos mais importantes cineastas do século 20. Claro, vemos as fotos com a atitude retrospectiva de quem sabe que aquele olhar que registra o engraxate, a bailarina, o policial, o universitário seria o mesmo ao qual devemos obras-primas como 2001 – Uma Odisseia no Espaço, Barry Lyndon e O Iluminado. No entanto, essa série de fotografias, por sua qualidade extraordinária, permite uma reavaliação dos anos de formação do futuro gênio do cinema. Além do seu valor em si, ajudam a iluminar a obra.

O curioso é que essa coleção estava dispersa, senão perdida, antes de ser garimpada pelo crítico de arte Rainer F. Crone, que também assina a curadoria da exposição. Crone diz que se empenhava em uma pesquisa séria sobre a fase de fotógrafo do cineasta quando procurou o próprio Kubrick, em Londres, para que ele o ajudasse. “Para minha surpresa”, conta Crone, Kubrick disse que não possuía nenhuma das imagens que tinha feito para a Look entre 1945 e 1950 e não tinha ideia de onde se encontravam os negativos. Nem mesmo se ainda existiam.” Crone diz ainda que Kubrick o encorajou a continuar as buscas pelas fotografias. Isso foi em 1998. No ano seguinte, Kubrick morreu, deixando como legado seu último (e extraordinário) filme, De Olhos Bem Fechados, baseado na obra de Arthur Schnitzler Breve Romance de Sonho.

No curso dos anos sucessivos, chegou-se à descoberta dos negativos, conservados nos arquivos da Biblioteca do Congresso americano. O outro golpe de sorte surgiu quando se soube que 2/3 dos negativos de Kubrick haviam sido doados ao Museu da Cidade de Nova York pela Look, em 1952. Estavam misturados a material de menor valor e tiveram de ser cuidadosamente separados. Dessa forma, chegou-se a esse notável tesouro – 12 mil negativos de fotografias tiradas por Stanley Kubrick em sua juventude. Foram 12 também os anos que Croner dedicou ao estudo desse tesouro fotográfico.

O desafio final então se converteu em selecionar, entre essas milhares de imagens, cerca de 200 das mais significativas e ampliá-las para que dessem forma a essa exposição. Foram todas feitas para servir como material jornalístico e, portanto, jamais foram vistas nas grandes dimensões em que se encontram hoje no palazzo veneziano. A maior parte das fotos foi tirada com uma câmera Rolleiflex, com negativo no formato 6 x 6. Donde os quadros em que se transformaram terem forma quadrada e não retangular como é de hábito nas fotografias.

Como destaca Crone, Kubrick aproveitou-se de maneira muito hábil da exigência da Look de dispor as fotos em sequência narrativa – “Ele conseguiu de fato transformar imagens estáticas (still pictures, próprias da fotografia) em sequências que davam lugar a verdadeiras histórias, espécie de ‘contos’ fotográficos tão fascinantes como aqueles que ele viria a realizar mais tarde com imagens em movimento.” Em outras palavras, o Kubrick cineasta estava já contido no Kubrick fotógrafo.

A observação e estudo das fotos de Kubrick ainda vão render frutos teóricos entre os críticos. São imagens que pedem reflexão, nem tanto para desenharmos uma linha evolutiva que levaria do fotógrafo ao cineasta, mas para sacarmos uma poética da imagem já em ação, desde o tempo da Look.

Primeiro, um ideal da forma como composição do quadro e disposição dos volumes. Uma harmonia do quadro e dos movimentos, um equilíbrio que se dá exatamente pela possibilidade do desequilíbrio. A fotografia dos artistas circenses que está no alto desta página é bom exemplo dessa disposição. Note o perfeito balanço do trio de equilibristas, numa pose inusitada, perfeita, que cativa ainda mais o olhar pela presença um tanto misteriosa do personagem em primeiro plano.

Por que ele está lá, quando explicitamente o “tema” da imagem são os artistas? É uma presença que destaca, por paradoxo, aquilo que se passa às suas costas. Mas é também um elemento que empresta certa estranheza à fotografia. Quem seria ele? Um empresário? Um espectador? Por que está com a mão em concha ao lado da boca? O que procura dizer? A quem? Não sabemos nada disso pela mera observação da imagem. Mas tudo o que não sabemos estimula a nossa imaginação.

O que remete a outra característica de Kubrick: o culto da ambiguidade. Ele sabia que a imagem precisa ser clara e, ao mesmo tempo, ambivalente. Dessa dupla face ela tira a sua força, pois, sendo clara, atinge diretamente o sentido do espectador; e sendo ambígua, explode numa polifonia de sentidos possíveis.

É assim nas fotos; será assim nos filmes. Adivinha-se, nessa constância, uma disposição estética, uma “poética” da imagem, cara a Kubrick. São suas palavras: “Sempre pensei que uma ambiguidade crível, realística de verdade, constitua a melhor forma de expressão. E isso por diversas razões. Primeiro de tudo, ninguém gosta que as coisas lhe venham explicadas, ninguém gosta que a verdade do que está acontecendo lhe chegue mastigada E, coisa ainda mais importante, ninguém sabe de verdade o que seja o real ou o que esteja acontecendo. Acredito que uma verdadeira, perfeita ambiguidade, seja alguma coisa que pode ter diversos significados, cada um dos quais detém algum aspecto da realidade, e cada dos quais, ao mesmo tempo, induz o observador a mover-se emocionalmente na direção em que desejamos que ele se mova. Creio que uma asserção clara, literal e ‘objetiva’ seja em si mesma falsa e não terá jamais o poder que pode ter uma perfeita ambiguidade.”

Nos melhores filmes de Kubrick – e os melhores são quase todos – reencontram-se essas características, que já podem ser intuídas nas fotos. A imagem costuma ser clara e misteriosa a um tempo, como se Kubrick trabalhasse no limite do hiper-realismo. Aparecem, independentes do tema – seja na ficção científica de na distopia social de Laranja Mecânica ou num drama histórico e amoroso como Barry Lyndon.

(Caderno 2/Domingo, 3/19/10)

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