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A onda verde sobe *

Luiz Zanin Oricchio

19 Fevereiro 2013 | 09h17

Sinto a onda verde subir. Depois de andar com a maré mais baixa do mundo, para assustar até siri, o alviverde imponente ressurge. Começou com a vitória na primeira partida da Libertadores. Agora veio o empate, dado como improvável por muita gente boa, com o atual campeão do mundo, o Corinthians.

Ninguém se iluda. O Palmeiras não tem um timaço, seus jogadores não são exatamente craques e não vão deixar todo mundo de queixo caído pela beleza de suas jogadas. Mas como têm honrado a camisa que vestem! Mais que muito medalhão por aí.

Parece que a senha para essa recuperação moral foi dada com a ida de Barcos para o Grêmio. O argentino Barcos, a referência do time, batia asas, numa negociação ainda cercada de pontos obscuros. Ele, espertamente, teria se mostrado ambíguo para fazer média com a torcida, mas não parecia de modo algum disposto a jogar a segunda divisão. Foi para o Grêmio e, dizia-se, que a troco de cinco jogadores. Assim, no atacado. Um deles era Marcelo Moreno, mas o seu pai e agente disse que de modo algum colocaria o filho para jogar num time de segunda categoria.

O quê? Talvez o cidadão não saiba que estava falando de um clube octocampeão brasileiro, campeão da Libertadores, time que já teve ídolos como Dudu e Ademir da Guia na era da Academia e Marcos até recentemente. As pessoas não têm mais noção de história. Aliás, as pessoas parecem não ter noção de qualquer espécie hoje em dia. Vão falando o que lhes passa pela cabeça (e não passa grande coisa), sem medir consequências.

Pois bem, parece que esse amontoado de sandices agiu como estímulo para que o time voltasse aos brios e saísse da posição depressiva em que parecia encerrado. Caiu a ficha. Os palmeirenses de verdade puderam se dizer: “Estamos numa situação difícil mas somos grandes; e vamos sair dela”. De alguma forma, esse astral contaminou um elenco limitado porém muito bem treinado por Gilson Kleina. O Palmeiras jogou bem a sua primeira partida na Liberdades e derrotou o campeão peruano, o Sporting Cristal. Certo. Jogando no Pacaembu tinha mesmo de vencer. Mas quem apostaria isso antes do jogo, e com a nuvem negra que estacionara sobre o Parque Antártica?

Depois veio o Dérbi. Corinthians, com seu time titular, favorito absoluto. E o jogo começou desse jeito mesmo, parecendo brincadeira de gato e rato, com o Timão encurralando o Palestra e só esperando a hora certa para fazer o gol. Quando este surgiu, paradoxalmente o Palmeiras começou a jogar melhor. Encontrou-se em campo, igualou o jogo e chegou a superar o Corinthians, que só chegou ao empate graças ao gol de Romarinho, iniciado na jogada genial de Pato. O Palmeiras saiu de campo de cabeça erguida.

E assim deverá ficar. Não se esperem milagres, mas se o time mantiver essa disciplina tática e essa pegada (no bom sentido), os palmeirenses podem ter um ano melhor do que poderiam esperar há poucos dias. É manter a testa erguida, a espinha reta e surfar essa pequena onda verde que se formou. Sem deixar a peteca cair. E sem ceder à ancestral tradição de dar tiros nos próprios pés.

* Coluna publicada no Caderno de Esportes do Estadão