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A Olimpíada e nós *

Luiz Zanin Oricchio

17 Julho 2012 | 08h14

O futebol brasileiro vai à Olimpíada em busca da inédita medalha de ouro e nós ficamos por aqui torcendo pelos “nossos meninos”. Bem, eu não sei se torcedores do Internacional e do Santos, que jogaram um clássico medíocre porque desfalcados dos seus craques, estariam muito de acordo com isso. O mais provável é que torçam por uma desclassificação prematura e assim devolvam os meninos, como ouvi de um santista mal humorado. O fato é que jogadores como Neymar e Oscar são insubstituíveis. Isso para não falar de Rafael, Ganso e Leandro Damião. Muito desfalque para um jogo só. Mas vocês acham que a CBF teve pena dos clubes ?  Ou do campeonato que ela mesma organiza? Eu não apostaria nisso.

Os clubes estão calvos  de saber disso. Como disse alguém neste fim de semana, ninguém precisava ser uma mãe Dinah para adivinhar que esses jogadores seriam convocados. Os clubes deveriam ter se preparado para isso. Não o fizeram. Ou não puderam fazê-lo. Tiveram de improvisar, pescando gente ainda nos cueiros nas categorias de base, ou escalando atletas recém chegados, que provavelmente desconhecem o nome do companheiro ao lado. Mal das pernas, os clubes não têm elenco para disputar duas competições ao mesmo tempo. E nem encontram peças de reposição quando sangrados pelas convocações. São obrigados a se virar como podem, mas poderiam ter previsto os desfalques e talvez se planejado melhor. Mas teriam como se planejar?

As outras alternativas são remotas. Parar o campeonato é inviável. Não há datas e prejudicaria os outros clubes, que não têm nada a ver com isso. Adiar as partidas dos clubes que têm jogadores convocados seria mais uma vez punir quem não tem nada a ver com o peixe, além de instaurar uma anomalia na disputa, com os famosos asteriscos para distinguir os clubes com número de partidas diferente dos demais. Fica muito chato. Ninguém sabe quem está na frente, quem periga cair, quem disputa vaga na Libertadores. O caos. Sendo assim, os clubes que têm jogadores convocados que se contentem em chiar. E torcer, em silêncio, para que eles voltem para casa o mais cedo possível. Sim, porque, para consumo externo finge-se patriotismo. Mas, por dentro….

Nem sempre foi assim. Houve tempo em que servir à seleção era uma honra máxima, diante da qual qualquer sacrifício se tornava pequeno. Essa relação das seleções com o público foi rompida, por motivos que conhecemos. Mas a CBF continua a agir como se nada houvesse acontecido. Vive uma espécie de esquizofrenia branda, alheia à mudança de sentimento dos brasileiros. Ou talvez seja apenas puro cinismo.

Na Olimpíada disputa-se não apenas a medalha inédita. Há mais em jogo. Possivelmente, a estabilidade da cúpula da seleção. Ou você acha que Mano Menezes terá vida fácil caso fracasse em Londres? Pode não chegar a 2014.  Diante de tais interesses, os clubes que se danem.

* Coluna Boleiros do Caderno de Esportes do Estadão