As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

A ofensiva reacionária e o tema da justiça social

Luiz Zanin Oricchio

03 Março 2007 | 13h38

Achei interessante a entrevista com Antonio Cícero na Ilustrada de hoje. Acesso aqui para assinantes.

Cícero, poeta e filósofo, entende que existe em curso uma ofensiva reacionária no País, o que me parece uma constatação do óbvio. E acha que direita e esquerda seriam sócias nessa empreitada: “Ambas podem andar de mãos dadas no desprezo à democracia, tratada pela esquerda como um sistema ‘formal’, expressão cujo significado facilmente se converte em ‘ilusório’ ou ‘falso'”.

Assim, Cícero ataca não apenas o conservadorismo, por exemplo o assumido recentemente pelo filósofo Luis Felipe Pondé, como também as esquerdas em geral, marxista ortodoxa, ou pós-modernos, entendidos assim os soixante-huitards que sonhavam mudar a sociedade, como Marx, e mudar a vida, como Rimbaud.

Tudo muito bem. Eu só estranho que a questão da justiça social não entre senão de raspão em toda a argumentação de Cícero. Acredita ele que “seria preciso lutar pela consolidação e o aperfeiçoamento de instituições internacionais que assegurem o respeito universal aos direitos humanos, que devem incluir a garantia de um mínimo de condições dignas de vida a todos”. “Um mínimo de condições dignas”, eu sublinho. E é só. Num quadro nacional e internacional de disparidades extremas, com a miséria atingindo vastos contingentes populacionais, tal aspiração me parece tímida demais. Ainda por cima vinda de um poeta.

Para Cícero, as grandes conquistas da racionalidade moderna (Estado de direito, liberdade de expressão, liberdades individuais, autonomia das ciências e das artes, pluralidades das expressões eróticas, etc.) são tratadas com descaso pela esquerda economicista. A crítica é justa. Mas não seria o caso de dizer também que a questão da justiça social, talvez o mais urgente dos desafios do mundo moderno, foi expelida da agenda de intelectuais como Antonio Cícero e relegada à condição de uma espécie de problema secundário?

Do tipo: “Se der para resolver, tudo bem. Se não der, paciência, né? Não é com a gente mesmo…”