A obra polifônica de Helena Solberg
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A obra polifônica de Helena Solberg

Diretora de 'Carmem Miranda - Bananas is my Business' e 'Vida de Menina' ganha retrospectiva no CCBB. Obras menos conhecidas, de sua fase norte-americana, também serão exibidas

Luiz Zanin Oricchio

07 Março 2018 | 13h39

Para a nova (aliás não mais tão nova) geração de críticos, o nome de Helena Solberg começou a ser conhecido com seu documentário Carmem Miranda – Banana Is My Business, que arrasou no Festival de Brasília de 1995.

Mas Helena, que foi moça morar nos Estados Unidos, tem toda uma obra, digamos assim, “submersa”, a ser conhecida pelo público atual e a oportunidade para isso é agora, com a retrospectiva do Centro Cultural Banco do Brasil que começa hoje.

Por exemplo, A Entrevista, de 1966, é um filme formal e conceitualmente bastante avançado. A diretora olha para sua própria classe social e registra ideias, esperanças e receios das moças de classe média alta, estudantes do Colégio Des Oiseaux, e que se preparam para os primeiros namoros, o casamento e a vida em família.

A câmera acompanha mais de perto uma dessas personagens, enquanto se ouvem as falas de outras garotas. A tantas, há um corte e vê-se a própria diretora entrevistando uma delas. O filme parece pioneiro na investigação do mundo feminino brasileiro, oculto, àquela altura do campeonato, por motivos diversos. Entre os quais, a “pauta” do Cinema Novo, que privilegiava a disparidade social, questões agrárias e de lutas de classes.

A Helena que pesquisa o feminino continua em seu trabalho nos Estados Unidos The Emerging Woman (A Nova Mulher), de 1975.

Mas a vemos numa dimensão mais diretamente política ao abordar a revolução sandinista em From The Ashes: Nicaragua Today, de 1982. Temos aqui um doc bastante complexo, abordando vários ângulos de um processo revolucionário, com o ponto de vista dos ativistas, da burguesia, passando pelo impasse da questão da posse da terra e da troca de comando de um presídio. Tudo muito rico, muito sincero, numa multiplicidade de pontos de vista que respeita a capacidade de o público tirar suas próprias conclusões. Sem ser tratado como débil mental ou puro joguete de manipulação ideológica.

Em The Forbidden Land (A Terra Proibida, 1990), feito para o canal PBS dos Estados Unidos, Helena trata das divisões da Igreja brasileira. Dos conservadores aos adeptos da Teologia da Libertação, traça um arco de atitudes em relação ao débito social brasileiro. Ouve também outros personagens, como políticos ruralistas e um capanga que admite ter matado um sacerdote defensor dos camponeses. Um filme muito forte e, como o da Nicarágua, polifônico.

O que não quer dizer neutro, “isentão”, como se costuma dizer hoje. Os filmes de Helena têm ponto de vista e este é progressista. Mas ouve os vários lados de uma questão controversa.

São filmes a serem descobertos pelo público brasileiro.

E outros, os mais recentes, a serem revistos. A começar por Carmem Miranda – Banana is My Business que, com material de arquivo e encenações, repõe em pauta a figura ambivalente e dialética de Carmem, estrela nacional que deixou o país para brilhar em Hollywood. Signo de nossa contraditória nacionalidade, Carmem é como um logotipo de nossos impasses em relação ao Outro e a nós mesmos.

Outro longa a ser revisto é Vida de Menina, baseado na obra de Helena Morley, um precioso testemunho de uma garota sobre a Diamantina do século 19, na época da decadência da mineração, com a escravidão recém-abolida, porém mantida em seus traços fundamentais. Ludmila Dayer interpreta a menina observadora, num filme cheio de frescor e espontaneidade. Ganhou uma fieira de prêmios em Gramado, inclusive o Kikito de melhor filme.

Enfim, essa mostra contém uma parte escondida e outra já mais conhecida de uma realizadora que chega aos 80 anos em plena produtividade e interesse pelo país. A conferir, também, seus títulos mais recentes, Palavra (En)cantada, 2009, e A Alma da Gente (2013)

 

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