A nouvelle vague e sua musa, Anna Karina
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A nouvelle vague e sua musa, Anna Karina

Luiz Zanin Oricchio

16 Julho 2012 | 10h04

 

 

Uma dinamarquesa foi a musa da nouvelle vague francesa. Dinamarquesa? Bem, se alguém chamá-la por seu nome civil, Hanne Karin Blarke Bayer, pouca gente saberá quem é. Mas se alguém falar em Anna Karina, os cinéfilos se lembrarão da magnífica atriz de Viver a Vida, Uma Mulher É uma Mulher, Pierrot Le Fou e outros filmes de Jean-Luc Godard. Ou talvez de A Religiosa, que Jacques Rivette adaptou do clássico de Denis Diderot e que, para muita gente, é seu maior papel no cinema.

Anna Karina está em Brasília a convite do BIFF, o primeiro Brasília International Film Festival. Na abertura do festival, quinta-feira na Sala Villa-Lobos do Teatro Nacional, Anna mostrou outra de suas virtudes: acompanhada de piano ou violão, fez um show intimista para as 1300 pessoas que lotavam a sala. Cantou músicas próprias ou de Serge Gainsbourg com sua voz rouca, pequena e envolvente. Cantou e encantou a todos.

Em especial, talvez, aqueles que conservavam dela uma visão nostálgica dos tempos da nouvelle vague. Houve uma preparação para isso. Antes do show, os organizadores colocaram na tela a longa sequência de Bande à Part, de Godard, em que a personagem de Anna, Odile, dança com seus dois parceiros de aventuras vividos por Sami Frey e Claude Brasseur. É um momento de ritmo, alegria, a própria felicidade do cinema.

No dia seguinte ao show, Anna Karina encontrou-se com o Estado para uma entrevista. Num saguão de hotel, em frente ao lago, Karina lembrou dos seus tempos de manequim, na França, antes de ser descoberta pelo cinema. “Saí da Dinamarca com 17 anos, menor de idade, porque não me dava com meu padrasto. Fugi de casa. Era espancada e não podia tolerar isso”, diz, com toda a simplicidade. Chegou a Paris, alugou um quarto minúsculo (chambre de bonne, como dizem, quarto de empregada), sem água corrente, mas logo seu rosto foi descoberto pelas revistas da moda. Foi capa da revista Elle e Coco Chanel sugeriu a mudança de nome para Anna Carina. Ela trocou o ‘C’ pelo ‘K’ e assim nasceu o nome que conhecemos.

Deveria ter começado sua carreira francesa com o filme de estreia de Godard e aquele que é talvez o seu título ainda mais conhecido – Acossado, de 1960. Houve um problema. Seco, o diretor falou para a garota: “Faudra vous désabiller”. Vai ser preciso tirar a roupa. Não topou e foi-se embora. Pouco depois o cineasta a procurou para seu projeto seguinte, Le Petit Soldat (1960). Desta vez, com roupa.

Trabalhou também com Godard em Mulher é uma Mulher (1961), Viver a Vida (1962), Bande À Part (1964), Alphaville (1965), Demônio das Onze Horas (Pierrot Le Fou, 1965), Made in USA (1967) e um episódio de O Amor Através dos Séculos (1967). Foi casada com o cineasta-símbolo da nouvelle vague por quase sete anos, uma união tumultuada por separações temporárias, brigas e tentativas de suicídio.

Além de ser o rosto mais simbólico de atriz da nouvelle vague, Anna foi testemunha do método de filmagem que revolucionou o cinema dos anos 1960. Diz que o modo natural dos atores se expressarem devia-se ao bom ouvido de Godard para escrever os diálogos e não ao improviso, como se acredita. “Isso virou um mito e não tem fundamento. Não havia espaço para improvisação. Ele escrevia os diálogos, às vezes de manhã bem cedo, e nos entregava. Ensaiávamos e filmávamos em seguida”, diz.

Anna Karina tem bastante orgulho do seu trabalho na nouvelle vague. “Em especial pela permanência dos filmes no gosto do público jovem. Viajo pelo mundo todo e garotos de às vezes 15 anos vêm me dizer que viram Pierrot le Fou e adoraram; e olhe que hoje eu sou uma vovó para eles, hein?”, diz, rindo.

Esse orgulho não a deixa vaidosa ou egoica. “Acho que se há uma lição daquele tempo é a de não nos levarmos muito a sério. Sempre digo que fazíamos coisas sérias, mas sem nos acharmos pessoas importantes; simplesmente nos divertíamos.”

Talvez seja esse o segredo. Anna Karina, além dos sete filmes que fez com Godard, e da obra-prima com Jacques Rivette, trabalhou com outros monstros sagrados, como Luchino Visconti (O Estrangeiro), George Cukor (Justine), Raoul Ruiz (A Ilha do Tesouro), entre outros. Não se leva tão a sério e envelhece bem. “Hoje uma atriz faz uma pontinha num filme de Hollywood e já se julga dona do mundo”, ri-se. “É muito tolo”. O que acrescentar?
(Caderno 2)