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A nobre arte: Remnick e Mailer

Luiz Zanin Oricchio

17 de outubro de 2006 | 17h41

Comecei a ler Dentro da Floresta (Cia das Letras, 576 págs., R$ 62)de David Remnick, por seus perfis de boxeadores – Mike Tyson, Larry Holmes, Lennox Lewis, além do treinador Teddy Atlas. O mínimo que se pode dizer de Remnick, editor e repórter da revista The New Yorker, é que, nesse particular, encontra-se à altura de Norman Mailer, outro que gostava de escrever sobre a “nobre arte” e seus personagens. Os textos foram redigidos para a revista e fazem parte de um elenco de perfis que abrange de políticos como Al Gore e Tony Blair a escritores como Philip Roth e Don DeLillo. Os perfis, longos, são parte da tradição da New Yorker, revista que nunca botou fé na pretensa preguiça mental dos leitores. Supõe que quem gosta de ler irá até o fim de um texto bem escrito, mesmo que ele se estenda por páginas e páginas. Vá dizer isso a um jornalista brasileiro…Mas, enfim, a revista está aí, viva e sã, mantendo o mesmo modelo.

Ao ler os textos de Remnick sobre Tyson, lembrei-me de um artigo de Mailer sobre o mesmo lutador. Texto célebre, no qual se destaca a figura de Cus D’Amato, que adotou Tyson, tirou-o das ruas e transformou-o num campeão. D’Amato comparece também (é inevitável) no perfil de Tyson traçado por Remnick. Mas a impressão dos dois autores sobre o treinador é diferente. Para Mailer, D’Amato era uma espécie de guru das ruas, que transmitia ao pupilo sua particularíssima filosofia sobre o medo e com isso fazia do aluno um vencedor. Um lutador sem medo, segundo D’Amato, seria um lutador inerte. Para vencer, ele teria de administrar esse instinto humano até transformá-lo em seu amigo e conselheiro. Já Remnick parece minimizar as concepções de vida de D’Amato e relegá-las a plano inferior na influência que exercia sobre os boxeadores jovens, Tyson em particular.

São diferenças de opinião, ou melhor, de interpretação sobre o papel de um personagem secundário na biografia de um personagem central. Mas o que importa é a agudeza de percepção que tanto Mailer como Remnick empregam ao perfilar seus personagens. Nota-se aí, mais de que uma técnica narrativa ou de observação, o profundo respeito que têm para com esses personagens. E também a compreensão do papel que esses artistas (porque são artistas) desempenham no imaginário de uma sociedade do espetáculo. Mailer escreveu um livro magnífico, A Luta, sobre o combate entre Ali e Foreman, no Zaire. Remnick escreveu O Rei do Mundo, também sobre Ali, que foi o maior de todos.

Isso tudo para dizer que falta por aqui quem consiga transformar a vida dos nossos heróis populares em literatura de alta qualidade. Com exceção de A Estrela Solitária, em que Ruy Castro biografa a existência gloriosa e trágica de Mané Garrincha, não conheço outros livros de mesmo nível sobre os nossos ídolos esportivos.Há todo um filão a ser explorado. Faltam os escritores.

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