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A Negociação

Luiz Zanin Oricchio

21 de dezembro de 2012 | 08h23

Neste A Negociação o agora maduro Richard Gere é um milionário investidor, Robert Miller. Precisa vender sua firma por uma quantia altíssima, pois tomou empréstimo alto para um investimento que depois se revelou furado – uma mina de cobre na Rússia. O tempo é o da bolha imobiliária, a crise que produz efeitos na economia global até hoje.

Miller é muito bem casado com Ellen (Susan Sarandon) e sua filha, Brooke (Brit Marling) o ajuda a tocar o negócio. Sessentão, Miller mantém um caso extraconjugal com uma deslumbrante pintora francesa (Laetitia Casta), possessiva e apaixonada. Ou seja, caminha na corda bamba. Mas nunca se pode dizer o quanto as coisas estão mal a não ser quando elas de fato começam a ficar piores. Um acidente de carro vai revolucionar a vida do milionário de uma maneira como ele jamais poderia pensar. E, grande negociador, o fará enfrentar uma negociação para o qual talvez não estivesse preparado.

Filme bem transado, A Negociação, poderia se dizer, fica no “quase”. Por momentos, pensamos que vai desenvolver sua história a ponto de se tornar um grande filme. Como não chega à grandeza, torcemos para que seja ao menos um ótimo filme. Mas nem a esse nível consegue chegar. Alguma espécie de timidez intrínseca parece paralisar o diretor Nicholas Jarecki justamente quando se encontra prestes a fazer alguma coisa diferente com o tema. Por exemplo, entrar nas entranhas do mercado especulativo e ver que tipo de gente se dedica a essa atividade com tanta convicção.

Gere está muito bem no papel, diga-se. E vai até onde o filme lhe permite ir. Não é retratado como um canalha acabado, mas como homem que sabe o que sua profissão impõe. “A vida funciona assim”, diz ele, à guisa de desculpa, para a esposa traída. Aliás, o elenco é o ponto forte da produção. Susan Sarandon comporta-se com a elegância de sempre, mesmo que seu papel passivo não dê chances a grandes voos, a não ser num solo final bastante interessante. Tim Roth faz um policial obstinado, Michael Bryer, que quer pegar Miller de todo jeito. Mesmo usando de expedientes pouco ortodoxos. Enfim, ninguém é muito santo nessa história, a não ser Brooke, colocada de maneira um tanto improvável como alguém que se mete nesse tipo de atividade e não deseja sujar as mãos. Mais que a amante, a filha será o pomo da discórdia na família.

A história toda é bem armada, mas uma anatomia completa desse “funcionamento da vida”, uma fisiologia do capital especulativo e uma taxinomia dos tipos de ser humano envolvido nesse ramo talvez fossem corrosivos demais para os limites que um filme comercial se impõe. Nesse sentido, acaba sendo um tanto decepcionante, embora funcione como boa diversão. Tem ritmo e o elenco não deixa a peteca cair. Tudo muito profissional. Mas onde está a alma?

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