A Música segundo Tom Jobim
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A Música segundo Tom Jobim

Luiz Zanin Oricchio

12 de janeiro de 2012 | 08h52

 

Tom Jobim dizia que a linguagem musical era suficiente. A frase está no final do documentário de Nelson Pereira dos Santos e Dora Jobim, que leva o nome de A Música segundo Tom Jobim. Tom tinha razão. Ainda mais quando se é um músico como ele foi. Mas não se pode esquecer de que ele era, também, um mestre das palavras. Letrista de mão cheia, são dele, por exemplo, os versos de obras-primas como Águas de Março e Matita Perê. Além disso, era conversador emérito, num tempo pré-Facebook, em que bater papo, ao vivo e em cores, era uma forma de arte. De quebra, Tom concedia entrevistas antológicas por sua inteligência, originalidade e senso de humor. Deve ter dado milhares de entrevistas ao longo da vida. Livros e ensaios sobre ele existem às dúzias. Contam-se às dezenas especialistas sobre sua vida e obra.

Donde a tentação de usar palavras para falar de Tom deve ter sido muito grande. Por sorte, Nelson as evitou. E deixou que a música de Tom Jobim falasse por si mesma. E, ao falar, ou melhor, soar, falasse também de tanta coisa…Por exemplo, do Rio romântico, anos 1950, evocado em imagens da época em que bondes disputavam espaço com carrões americanos, e Ipanema, como dizia Tom, era apenas um grande areal.

Fala de outras coisas também: da música tão sofisticada que parece muito simples (daí o sucesso, apesar da complexidade melódica e harmônica), de algo impalpável como o utópico reinventar-se de um país (donde a presença de imagens da construção de Brasília ao som da Sinfonia da Alvorada, parceria com Vinicius), de uma promessa de felicidade que nada tinha de piegas, do prazer sereno e nem por isso menos intenso. Enfim, essa imersão na música permite que cada espectador construa o seu Tom Jobim favorito. Permite que sonhe e deixe a imaginação fluir, evocando momentos de sua vida pontuados por essas canções. Tom faz parte da trilha sonora da vida de cada um de nós.

A alusão visual à época de surgimento da bossa nova não se dá no registro nostálgico. Pelo contrário. Se alguma coisa o filme reafirma é a continuidade da música de Tom Jobim ao longo do tempo e das geografias. Das parcerias com Dolores Duran (Por Causa de Você, Estrada do Sol), à revolução suave da bossa, com seus “manifestos”, Desafinado, Samba de uma Nota Só e Desafinado, ao Tom telúrico, de Urubu e Matita Perê. Falta um pouco o Tom sinfônico, “pela ausência de imagens”, como explica seu filho, Paulo Jobim. Mesmo assim, o filme termina ao som de Saudades do Brasil, peça instrumental belíssima, de diálogo direto com Villa-Lobos, orquestrada por Claus Ogerman (está no álbum Urubu).

Tão carioca e brasileiro até no nome, Tom se tornou universal. Suas músicas foram interpretadas por Frank Sinatra, Errol Garner, Oscar Petterson, Ella Fitzgerald, Sarah Vaughn, Elis Regina, Henri Salvador, Fernanda Takai, Sammy Davis Jr., Judy Garland, Birgit Brüel, Lisa Ono, e um longo etc. Brasileiros, norte-americanos, franceses, italianos, asiáticos, todos cantaram Tom Jobim. A partir do Rio, Tom compôs para o mundo. Sai-se do filme em estado de graça.

A universalidade de Tom faz com que Garota de Ipanema se tornasse uma das músicas mais gravadas de todos os tempos. Aliás, quando lhe disseram que Garota era a segunda mais gravada, só perdendo para Yesterday, Tom retrucou: “Aí não vale: eles eram quatro e já compunham direto em inglês”.

(Caderno 2)

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