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A música, no cinema e fora dele

Luiz Zanin Oricchio

02 Janeiro 2007 | 17h55

Fui hoje de manhã ver Dias Selvagens, um filme de Wong Kar-Wai que não havia ainda sido lançado no Brasil e estréia nesta sexta-feira. Qual não é a minha surpresa quando, na cena inicial, reconheço o som inconfundível do violão dos Índios Tabajaras? Grande Kar-Wai, sabia já naquele tempo, 1990, usar uma trilha sonora como poucos. Além dos Tabajaras, ele incorpora ao filme alguns boleros e rumbas famosos o que, convenhamos, causa certa estranheza em uma história que se passa na China, nos anos 60. Mas é justamente essa dissonância que causa a melhor sensação em seus filmes – é como algo deslocado, fora de hora, fora de ritmo e ambiente e que, por milagre da música, se torna ainda mais intenso.

Enfim, falo disso porque a música é tão, digamos, orgânica, nos filmes de Kar-Wai que às vezes esquecemos de falar dela quando escrevemos sobre seus filmes. Agora, basta imaginá-los SEM a música para ver a falta que fariam. Imagine, por exemplo, Amor à Flor da Pele sem Nat King Cole, ou Happy Together sem Cucurucú Paloma…Esvaziam-se.

Mas talvez vocês não saibam que existe quem deteste música no cinema. Acham que a música entra quando a imagem é insuficiente e baseiam-se numa leitura muito literal de Robert Bresson, cineasta rigorosíssimo quanto ao uso de música em seus filmes. Eu não sou xiita nesse ponto. Mas tenho de concordar que música em excesso é a melhor maneira de estragar um filme, torná-lo meloso, adiposo, contra-indicado para diabéticos. Mas, na medida certa…, quem pode ser contra? Só quem for ruim da cabeça ou doente do pé, como diz mestre Caymmi.

Talvez um pouco sensibilizado pelo filme de Kar-Wai, saí do cinema e botei para rodar um CD de Baden Powell enquanto dirigia para o jornal. Que violão! Nunca ninguém o superou. É como Pelé no futebol, Ali no boxe, Elis Regina na voz. Algo único, uma assinatura. Ouvi algumas faixas daquele que alguns especialistas consideram seu melhor disco – 27 Horas de Estúdio. Em especial Lótus, All the Things You Are, Violão e Double, de J.S.Bach. Digo o óbvio: o que era aquela mão direita de Baden? Velocista e também capaz de ir sem transição da suavidade de veludo ao toque de guerra, rasgado, que parecia prestes a estourar as cordas? Dinâmica extraordinária, que toca fundo na emoção da gente.

Baden incorporou todos os afluentes disponíveis em seu estilo-rio: o aprendizado com Meira, as rodas de chorões da infância, o samba rasgado, a suavidade da bossa nova, o virtuosismo de Villa-Lobos e a invenção de Bach. E a liga do seu tempero, seu fundamento mais profundo, vinha da Mamãe África pulsante, dor e alegria infinitos. Salve, Baden, você foi embora cedo demais.