As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

A Mulher de Preto

Luiz Zanin Oricchio

24 Fevereiro 2012 | 11h27

Em seu primeiro trabalho após a série Harry Potter, o ator Daniel Radcliffe, agora aos 22 anos, continua às voltas com o sobrenatural. Em A Mulher de Preto, de James Watkins, baseado no livro de Susan Hill, ele faz o jovem advogado Arthur Kipps, incumbido de um caso difícil. Ele deve tratar dos assuntos pendentes de uma propriedade, abandonada depois que o dono faleceu. O próprio Kipps não se encontra em bom estado. Viúvo, pois a mulher morreu de parto, cria sozinho um filho de três anos de idade, e não encontra grande motivação em viver.

O filme começa nesse tom soturno e assim vai até o fim. É filme de época, em que carruagens convivem com os primeiros automóveis, fotografado em tons escuros e cheio de tipos suspeitos. A morte ronda cada fotograma, ou, pelo menos, essa parece ser a intenção do diretor Watkins. Daí que a missão de Kipps, arriscado de perder o emprego, será das mais espinhosas. A mansão abandonada fica perto de uma localidade litorânea.  Ninguém quer hospedar o advogado e muito menos auxiliá-lo em seu trabalho. Kipps só encontra hostilidade e desconfiança. Parece que uma maldição paira sobre o povoado e ela pode ter origem na velha casa que, periodicamente, fica isolada pela maré.

Existe um quesito básico para um filme de terror: criar uma atmosfera assustadora. Como fazê-lo? Inovando ou buscando novas formas? Watkins encontra sua resposta ao apoia-se em tudo o que o gênero já usou e consagrou. Não dá um passo fora do previsto. Mobiliza todas as artimanhas e receitas manjadas. Todas mesmo. Pequeno povoado com gente assustada, casa decrépita e isolada, com cemitério no jardim, pântano fumegante nas proximidades. E, sim, sustos que se escondem atrás de cada porta, rangidos noturnos, fantasmas que aparecem primeiro de maneira dissimulada, depois cada vez mais atrevidos. A reciclagem do mesmo destina-se a produzir medo na plateia, em especial no público teen.

Público que, aliás, tem acorrido em peso às pré-estreias do filme e enchido as salas com gritinhos de medo e sua torcida aflita pelo ex-Harry Potter. Sim, porque A Mulher  de Preto, apesar do ar british e, portanto, mais sóbrio que seus congêneres do outro lado do Atlântico, não disfarça a vocação de terror para consumo adolescente, a começar pela escalação do astro inglês para o papel principal.

Falemos dele. Radcliffe “interpreta” como lhe é possível e típico. Ou seja, com ausência habitual de expressão. Precisaria de um pouco mais dessa qualidade para o papel. Afinal, seu personagem é um ser marcado pela dor, pois perdeu a mulher jovem, e de maneira cruel. Mas Kipps é vivido com a abulia característica de Radcliffe. Um alheamento que, até certo ponto, consegue ser aproveitado pela direção ao fazer dele um profissional tão apático que parece prestes a perder o emprego. Depois, quando colocado em situação de perigo e enfrentamento, deveria mudar um pouco a expressão monocórdia. Não consegue.

Seria injusto colocar sobre os ombros de Radcliffe toda a responsabilidade. Grande parte dela repousa sobre a absoluta falta de ambição em mostrar algo diferente do  já visto milhares de vezes. É possível até que A Mulher  de Preto faça sucesso exatamente por causa dessa redundância. Às vezes o que é alvo de crítica torna-se a maior virtude comercial de um lançamento. Mas, claro, esse tipo de cálculo mercadológico só funciona para  quem se contenta com mais do mesmo. Do cinema, espera-se pelo menos algum tipo de inovação, mesmo que pontual, para rejuvenescer velhos gêneros. Senão, para que refazê-los? Se a resposta for, “por dinheiro”, ok. Contra negócios não há argumentos. Mas é só isso.

(Caderno 2)