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A morte de Raul Ruiz (1941-2011)

Luiz Zanin Oricchio

19 de agosto de 2011 | 14h25

Aos 70, morreu o diretor chileno, radicado na França, Raul Ruiz. Ano passado, o júri da crítica da Mostra de Cinema de São Paulo, deu o prêmio de melhor filme ao seu oceânico Mistérios de Lisboa, adaptado de Camilo Castelo Branco. Já fragilizado pelo câncer, Ruiz não pôde vir para receber o prêmio. Mandou uma carta simpática e bastante consistente, agradecendo a lembrança. É uma obra maravilhosa, um folhetim denso e envolvente, que encantou a todos. Suas mais de quatro horas de duração passam num instante. Ficou sendo seu último filme. Ou talvez não, já que estava montando ainda um último trabalho. Esperemos.

O fato é que, com Ruiz se vai um dos últimos cineastas de fato empenhados em um trabalho experimental. Paradoxalmente, produziu muito e seus filmes se contam às dezenas, desde o início no Chile até suas obras francesas, pais que adotou como seu. E que também o adotou como cineasta-intelectual, com o que resta à França de respeito pelas coisas do espírito.

Muito consistente, no conjunto do trabalho de Ruiz é sua trilogia, As três Coroas do Marinheiro, A Cidade dos Piratas e A Ilha do Tesouro – vagamente baseadas na obra de Stevenson. Mas repare bem, o trabalho de Ruiz era sempre sobre o tempo que, sem tê-lo nunca entrevistado, desconfio que era uma de suas obsessões.
Daí, com toda a certeza, veio a ousadia de adaptar o último dos sete volumes de Em Busca do Tempo Perdido, de Proust, O Tempo Reencontrado (Le Temps Retrouvé). E o fez, claro, não se limitando a uma impossível fidelidade ao original, mas ao espírito da obra proustina, seu paciente e radical trabalho de reconstrução da memória humana. Que pode não ser grande coisa, mas é tudo o que temos. Sem forçar a barra, sustento que é a mais inspirada tentativa de levar para a tela algum fragmento da catedral literária de Proust.

Nesse momento de morte, é possível que se programem retrospectivas. Eu só espero que esse extraordinário Mistérios de Lisboa chegue de vez às telas do país. É um programaço para ninguém botar defeito. Raul tinha uma concepção barroca da imagem, rigorosa e às vezes desmedida. Em Mistérios coloca essas características a serviço de uma história a contar, trama gigantesca, amazônica, como um rio repleto de afluentes.

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