A morte de Georges Wolinski
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A morte de Georges Wolinski

Luiz Zanin Oricchio

07 Janeiro 2015 | 17h00

wolinski

 

Totalmente chocado com a morte de Georges Wolinski entre os 12 do atentado ao Charlie Hebdo, em Paris.

Era leitor de Wolinski quando morei na França e o conheci pessoalmente na Amazônia, em 2007. Conversamos  longamente durante uma viagem pelo rio. Se alguém se interessar, o link para a entrevista é http://cultura.estadao.com.br/blogs/luiz-zanin/title-230/.

É a homenagem mínima que posso fazer a esse libertário, morto pela brutalidade do fanatismo religioso.

Estou numas de que, agora, o resto é silêncio.

Adendo: meu texto no Estadao de hoje

Quem viveu na França dos anos 1960 para cá não podia deixar de
conhecer Georges  Wolinski. Era o cartunista mais cáustico do país e
exerceu sua irreverência militante em veículos como L’Humanité,
Libération, Le Nouvel Observateur. Tido como erotômano, ímpio,
provocador, anarquista, era dotado de bom humor inesgotável. Tive a
sorte de conhecê-lo em 2007 numa viagem a Manaus. Wolinski fora
convidado para o júri do festival amazônico e gozava do relativo
anonimato, pois, celebridade em seu país, pouca gente no Brasil o
conhecia. Aproveitava o tempo e a privacidade para desenhar de maneira
satírica todos os participantes do evento. Em especial, suas colegas
de júri, que se divertiam com os traços sensuais com os quais o
cartunista as retratava. Conversei com ele numa viagem de barco no Rio
Amazonas e ele disse que de bom grado concederia entrevista, desde que
também pudesse entrevistar o repórter.

Queria com isso dizer que tinha muitas perguntas a fazer sobre aquele
país fascinante e quente que estava visitando e ninguém melhor do que
um jornalista para atualizá-lo. Meses depois publicou suas impressões,
escritas e desenhadas, num dos números do Charlie Hebdo.

Naquela época, fustigava sem dó nem piedade o governo de Nicolas
Sarkozy, a quem ironicamente agradecia por ser excelente tema de
material satírico. O resultado da conversa de horas no barco foi uma
longa entrevista publicada no Caderno 2.

Nela, Wolinski fazia o que se poderia chamar de profissão de fé total
na liberdade de pensamento e de expressão. Não havia para ele tema
tabu. Por isso, era contra qualquer tipo de restrição. Por exemplo,
dizia-se muito simpático a Cuba, mas criticava a ilha pela falta de
liberdade jornalística. E, nesse ponto, elogiava seu próprio país, a
França: “Temos lá um verdadeiro culto à liberdade, e também ao estado
laico, que vem da época das Luzes; nenhum presidente, seja de direita
ou de esquerda, irá propor uma restrição à liberdade de expressão”,
dizia.

E esse era um dos pontos de honra do Charlie Hebdo,  reduto de
Wolinski e propício ao seu gosto pela polêmica. A revista sustenta-se,
eticamente, porque atira para todos os lados, e não seletivamente,
como se faz no Brasil. A Charlie se permite ser irreverente com o
profeta Maomé, desde que também o seja com o papa. Não existe dúvida
quanto a essa equidistância da mordacidade humorística. Se a
publicação vivia sob ameaça de radicais muçulmanos pela famosa charge
de Maomé, nem por isso poupou o papa Bento 16 quando este visitou a
França em 2008. As charges de Ratzinger, algumas assinadas por
Wolinski, dificilmente seriam publicadas em países tidos como livres,
Brasil incluído. Esses desenhos, na verdade pensamentos críticos sob
forma gráfica, testam, continuamente, os limites da liberdade de
expressão. Mesmo num país como a França.

Wolinski, cuja arte foi moldada no espírito libertário dos anos 1960,
dizia que o humor era de esquerda, “porque a direita tem muito
compromisso com a ordem”, mas não fazia parte de partidos políticos.
De acordo com ele, um humorista não pode pertencer a nenhum partido,
nem crer em qualquer religião. Situa-se nesse ponto de liberdade ideal
em que tudo e todos, ele mesmo em primeiro lugar, são alvos potenciais
da crítica mais radical. Seu traço é expressivo, rápido, imperfeito.
Um mestre como ele poderia fazer desenhos perfeitos, mas preferia
mimetizar a vida como ela é, veloz, imperfeita, e muitas vezes suja.

Com seu humor cáustico, que o acompanhava no dia a dia, o anarquista
Wolinski talvez risse se alguém lhe dissesse que morreria como mártir
de alguma causa ou ideal, como a liberdade de expressão. Foi o
exercício ousado dessa liberdade que o colocou, e aos companheiros da
Charlie Hebdo, sob a mira da brutalidade. Poderiam ter se calado com
as ameaças sofridas havia anos, mas foram em frente. Devemos-lhes
esta.