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A morte de Gaiarsa

Luiz Zanin Oricchio

17 de outubro de 2010 | 10h40

Leio hoje no jornal que o psiquiatra José Angelo Gaiarsa morreu aos 90 anos. Morreu dormindo, sem sofrer. Fim digno de uma longa e produtiva vida.

Gaiarsa foi um ícone do pensamento libertário dos anos 60 e 70. Era muito presente na televisão e tornou-se figura conhecida por suas ideias ousadas, abertas em relação à família, ao amor e ao sexo. Foi pioneiro na introdução das ideias de Willhen Reich no Brasil. Como se sabe, esse dissidente da psicanálise levou ao limite a reflexão sobre o corpo, o orgasmo, o ser humano como ser sexuado.

Pelo que sei, Gaiarsa continuou ativo e lúcido até o fim. Mantinha página na internet, na qual debatia suas ideias. Era um ser moderno, contemporâneo de si mesmo, como todos deveríamos tentar ser.

Não é exagero dizer que morreu jovem. Alguns privilegiados enfrentam o inevitável declínio biológico com frescor de alma. Gaiarsa era desses.

Ao ler a notícia de sua morte, me pergunto o que estaria pensando Gaiarsa do Brasil contemporâneo, no qual a reta final de uma eleição virou um campeonato insano de reacionarismo, obscurantismo e carolice.

Terá pensado que todas as lutas libertárias são vãs quando travadas em país tão conservador como o Brasil? Espero que não. Espero que tenha refletido sobre a transitoriedade de tudo, e sobre circunstâncias históricas, que podem nos abater mas não devem nos derrotar ou levar ao pessimismo, à negação de tudo e à descrença no progresso.

E que tenha ido em paz.

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