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A morte de Eduardo Coutinho e o enigma da violência

Luiz Zanin Oricchio

05 de fevereiro de 2014 | 14h57

Recebi esse belo texto do cineasta Maurice Capovilla que, como todos nós, está chocado com o assassinato de Eduardo Coutinho. Pedi licença para reproduzir. Ei-lo.

 

 

O ENIGMA DA VIOLENCIA

Saí ontem do Cemitério São João Batista no Rio de Janeiro ciente de que a vida estará sempre em risco e por um fio, enquanto não mudarmos nosso comportamento em adequação a outras maneiras de conviver em grupo. Seremos sempre vítimas inconscientes da nossa própria formação e desinformação. E nada mais trágico de que o homem certo para decifrar enigmas e profundezas da natureza humana, com o simples uso do diálogo, tenha perdido a vida sem encontrar a solução.

Com certeza, diante do ocorrido e se ele estivesse vivo, faria provavelmente um filme com as perguntas imponderáveis aos jovens adolescentes, tais como: “ O que leva um menino de 10 anos a atirar na professora pelas costas e em seguida se suicidar?” Fato ocorrido numa sexta feira do ano de 2010 em São Paulo. “O que leva um menino de 13 anos a matar a família e se matar em São Paulo em agosto de 2013”. “ E porque um menino de 13 anos mata o irmão de 12 com um disparo aparentemente acidental ?”

No domingo, dia 2 de fevereiro, Eduardo Coutinho, um dos mais importantes cineastas do Brasil foi assassinado pelo próprio filho. Diante dessa tragédia surpreendente devemos perguntar: em que mundo vivemos? Será que a violência não está mais entranhada em nossa cultura do que pensamos? Está disseminada na sociedade de forma explícita nos conflitos armados, mas também aparece diluída de forma oculta em meio ao comportamento social e formatada pelos veículos de comunicação de massa. Nesse caso, será que o cinema não tem alguma coisa a ver com isso? Tenho certeza que este tema não iria passar despercebido e Coutinho iria rodear calmamente em volta desse núcleo de incertezas para buscar a fonte original do problema. E ele era o cineasta para isso.

Nas primeiras décadas do século vinte, o revolver era o instrumento que impunha a lei, balizava os conflitos e cumpria a função de eliminar, em duelo justo, sujeito a regras rígidas, o personagem que feriu a lei, matou a traição ou tentou impor sua vontade à população. Mas na evolução dos tempos, as armas no cinema se tornaram mais sofisticadas e letais. Incorporadas ao cenário urbano as armas de fogo adquiriram status de efeito estético e performático indispensável para o filme de ação. O cinema acompanha os movimentos sociais pois será sempre reflexo do real ou do imaginário popular. No entanto estamos recebendo, diariamente, através das salas de cinema e das TVs de Assinatura, uma carga exagerada de séries de filmes de ação, nos quais os conflitos são narrados de forma excessivamente violenta. E o que vemos hoje é o recrudescimento nas telas, da violência desmotivada e da crueldade envolvida com sadismo. Um cinema globalizado que apresenta um mundo fictício mas convincente, para sociedades ingênuas ou corrompidas e dominadas por criminosos e justiceiros. E no centro dessa nova dramaturgia, poderá estar o revolver na mão de uma criança.

A morte de Eduardo Coutinho é uma perda irreparável para a cultura brasileira que vai se refletir na obra que deixou e inspirar os jovens cineastas brasileiros a buscar, através do seu método, o fundo de uma verdade inesquecível.

Maurice Capovilla

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