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A mística do goleiro *

Luiz Zanin Oricchio

10 Setembro 2013 | 10h17

Naquela manhã, o Fábio, funcionário do hotel em que fico em Veneza, e com o qual sempre converso de futebol, nem me deu bom-dia. “Você viu o Buffon?”, foi logo dizendo. Sim, eu tinha visto o Gianluigi Buffon na véspera, que com três grandes defesas havia segurado o 1 a 0 da Azzurra diante da Bulgária e praticamente garantido a presença dos italianos na Copa do Brasil. Uma dessas defesas foi verdadeiro milagre. O búlgaro Popov arrematou dentro da pequena área, a metro meio ou dois do gol. Buffon tirou de dentro, no reflexo. Fez o impossível. É uma daqueles cenas do futebol que temos de ver e rever várias vezes, sem acreditar muito em nossos olhos.

Não foi só o Fábio a se entusiasmar. Toda a Itália, depois do jogo, só queria falar em Buffon e em goleiros, esses seres míticos – e às vezes amaldiçoados. Não por acaso, um escritor e filósofo como Albert Camus jogou na posição e disse que tudo o que se precisa saber sobre ética e valores pode ser aprendido num campo de futebol. Em especial se o camarada joga entre os três paus da trave.

Por exemplo, o goleiro sabe que tudo é relativo. Pode ser vilão ou herói por uma fração de segundo ou de milímetros. “Se” Barbosa tivesse chegado naquela bola chutada por Gigghia, talvez o Maracanazzo não tivesse existido e o goleiro sairia como um dos heróis do primeiro título mundial brasileiro. Talvez como “o”herói, aquele que, com uma defesa milagrosa, havia garantido o empate que dava o título. Como o “se”não joga, Barbosa virou vilão. E, já no fim da vida se queixava de que se a pena máxima no Brasil era de 30 anos, ele fora condenado pelo resto dos seus dias.

Na semana de Buffon, o articulista de futebol Gianni Mura, do La Reppublica, escreveu uma coluna muito bonita. Parte da façanha do goleiro da Azzurra e conduz o texto a uma página de glória da Itália. Como de fato tudo é relativo, essa é também uma página inglória para o lado oposto, ou seja nós. Você já adivinhou que falo do que batizamos como tragédia de Sarriá, a desclassificação da maravilhosa seleção brasileira de 1982 para a Itália que, indo adiante na competição, tornou-se campeã mundial pela terceira vez. Costumamos lembrar de Paolo Rossi, que fez os três gols, como nosso carrasco. Para os italianos, seria o herói. Pois Mura lembra outra coisa. De nada teria adiantado a incrível felicidade de Rossi naquele jogo se Dino Zoff não houvesse defendido, de maneira quase impossível, a cabeçada de Oscar no último minuto de jogo. Zoff recorda esse lance e lembra que foi uma defesa de fato muito difícil. Não bastava rebater a bola, pois provavelmente algum brasileiro a mandaria em seguida para gol. Era preciso matar o lance. Foi o que tentou fazer. E fez.

Esse depoimento de Zoff está num livro citado por Mura, Il Portiere (O Goleiro), de Jonathan Wilson, inteiramente dedicado a essa nobre posição. Fala dos grandes de todos os tempos, Lev Yachin, o aranha negra russo, considerado por alguns o maior de todos, mas também de Banks, Shilton, e tantos outros. Faz referência ao nosso Gylmar dos Santos Neves, há pouco falecido. O livro é escrito por um inglês, e o italiano Mura dele extrai a parte que lhe interessa. Fala muito de Zoff. De como, antes da Copa de 1982, andava desacreditado e críticos diziam que deveria comprar um cão-guia. Mas a virtude do goleiro é a paciência. Fala do seu senso ético e de como passou três noites sem dormir quando sua equipe venceu um jogo graças ao pênalti simulado por um companheiro.

Leio e me encanto com essas histórias de goleiros. E me pergunto o que andará pela alma de um dos grandes da profissão, Rogério Ceni, no último ano de sua carreira e com seu time vivendo momento tão sombrio.

* Coluna publicada no Esportes do Estadão