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A melhor história de Paulo Coelho é a dele mesmo

Luiz Zanin Oricchio

18 de agosto de 2014 | 09h47

 

Não Pare na Pista – a Melhor História de Paulo Coelho – eis aí o título escolhido por Daniel Augusto para sua cinebiografia do escritor brasileiro contemporâneo mais conhecido no exterior. Como a dizer que a melhor história de Paulo Coelho é mesmo a da sua vida, e não aquelas que criou como escritor.

De fato, é uma história e tanto essa contada pelo filme e vivida pelo autor de Diário de um Mago. Paulo foi um adolescente problemático, criado numa família careta, envolveu-se com drogas, o álcool, a contracultura e acabou internado num hospital psiquiátrico. Lá foi submetido a tratamentos radicais, entre os quais o eletrochoque. Conheceu um músico de nome Raul Seixas e realizou com ele parcerias de sucesso – até que a dupla rompesse, inesperadamente. Paulo enveredou pela via mística, percorreu o Caminho de Santiago de Compostela e, da série de experiências somadas, encontrou assunto para um livro que vendeu como pãozinho quente, mundo afora – O Alquimista.

No filme, essa trajetória até o sucesso é a que recebe maior ênfase. É o que há de mais interessante nessa singular obstinação de alguém em se tornar um escritor de sucesso. Ninguém acreditava muito nessa possibilidade, a começar pelo pai do personagem (Enrique Diaz, ótimo), pintado como conservador, mas nunca com rasgos caricaturais. A mãe é vivida por Fabíula Nascimento e, como todas as mães, tenta compreender o filho.

Paulo Coelho é interpretado pelos irmãos Ravel Andrade (na adolescência) e Júlio Andrade (na idade adulta e na maturidade). Para encarnar o escritor aos 60 anos, Julio recebe uma máscara confeccionada pelos mesmos técnicos espanhóis do filme O Labirinto do Fauno, de Guillermo Del Toro. Mesmo assim, fica muito pesada. O envelhecimento não convence e este é um dos motivos para não conseguirmos “entrar” na história quando ela traz o Paulo Coelho mais recente.

Mas não se trata apenas disso. É que as fases de formação, com todo o seu conflito e dilaceramento jovens, costumam mesmo ser mais estimulantes. Mesmo porque a evocação dos loucos anos 1960 e 1970, quando se forma o jovem Paulo, é bastante realista. Capta o espírito do tempo, em que fervia o fenômeno mundial da contracultura, a tentar os jovens, ao qual, no Brasil, adicionava-se outro ingrediente, apimentado, a ditadura e sua intolerância com desvios, tanto políticos como comportamentais. Paulo viveu tudo isso intensamente – e talvez seja mais daí que de suas supostas experiências místicas onde cava o tônus de sua prosa.

Sim, há os escritos de Paulo Coelho. Eles não são julgados pelo filme. Este é centrado na luta de alguém para concretizar o sonho de ser escritor e fazer sucesso, e só. Não se importa com a qualidade ou não desse produto literário. Daniel Augusto tem adotado postura diplomática em entrevistas. Mestre em literatura, Augusto diz que os críticos ainda não se deram ao trabalho de analisar em profundidade a prosa de Paulo Coelho. Apenas a desprezam, mas não a lêem. E se a lêem, o fazem superficialmente, sem abordar o todo da obra.

Bem, essa é discussão interminável. Fica o fato de que Paulo Coelho, por motivos talvez difíceis de entender, é autor de livros que já venderam 150 milhões de cópias pelo mundo, traduzidos em diversos idiomas. O sucesso é inegável e algo há de ter essa literatura para merecer tanto apreço popular. Mas, mais inegável ainda é que Paulo Coelho merecia um filme. Acaba de ganhá-lo e este é cheio de altos e baixos,  e imperfeições – como, aliás, a própria vida que tenta retratar.

 

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