A melancolia e a primeira semana sem cinema
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A melancolia e a primeira semana sem cinema

Luiz Zanin Oricchio

17 de março de 2020 | 15h53

 

Uma experiência inédita: pela primeira vez não temos uma única estreia nas salas de cinema. Salas que, até o momento, ou já se encontram desativadas ou funcionando a meio vapor. De qualquer forma, nenhum filme novo chegará às telas esta semana. E, provavelmente, nas semanas que se seguem. 

Tudo está sendo adiado. Filmes, festivais, mostras. Teremos, pelo jeito, um mega congestionamento cultural no segundo semestre. Vai ser pior do que no ano passado, quando, por conta do desmonte da área cultural, vários eventos só conseguiram se viabilizar a partir de julho e se encavalaram no calendário apertado. Agora vai ser muito pior. 

Não nos resta mais senão ficar em casa, cuidar da saúde e esperar o tempo passar. E quem pode fazer isso tem de dar graças a Deus por não ter de enfrentar um metrô lotado em São Paulo para ir e vir de um emprego do qual depende a sua sobrevivência. Isso para dizer que, para a imensa maioria do povo brasileiro, todos esses conselhos de afastamento social, home office, separação de quartos, etc, revelam-se perfeitamente inviáveis em face das exigências da vida real. 

De minha parte, trabalho já há vários anos em casa, então para mim não há novidade. Vejo estantes abarrotadas de livros e DVDs e me pergunto quantas vidas precisaria ter para dar conta de tudo. Isso sem falar das várias plataformas de streaming, de filmes e música, e outras maneiras que hoje temos de fazer a arte e o conhecimento chegarem até nós. De tédio não morreremos. 

Mas talvez nos faça falta o convívio social. Uma coisa é trabalhar em casa, com todas as vantagens (e percalços) que isso possa ter. Outra é saber que a convivência com as outras pessoas passou a ser vetada e não nos é dado sequer um cineminha com amigos e um restaurante depois.  

De qualquer forma, esta é uma experiência que ainda não tivéramos (e não nos fazia qualquer falta). Estamos isolados, à espera do avanço de um inimigo que não sabemos bem como é. Temos estatísticas. Tantos casos, tantos mortos, taxas de contaminação, medidas preventivas, etc. Mas é algo como guerrear contra uma sombra. 

Com toda a nossa modernidade, sentimo-nos desamparados como na idade média e seus relatos sobre a Peste. Outro dia mesmo morreu o grande Max von Sydow, celebrizado por seu cavaleiro que jogava xadrez contra a Morte, num quadro de epidemia traçado por Bergman em O Sétimo Selo. E, portanto, uma situação de pânico, preconceitos e caça às bruxas. O homem com medo é um animal muito perigoso.  

De modo que uma primeira semana sem filmes novos é apenas uma pequena sensação diferente em meio a uma grande estranheza que ainda não conseguimos decifrar. O isolamento da quarentena. 

Outro dia um amigo se lembrou do Decameron, de Boccaccio, em que um grupo de jovens se afasta da cidade para escapar à Peste Negra e ocupa o tempo contando histórias. Pasolini filmou lindamente esse clássico. 

Mas confesso que a imagem que mais me vem à mente é a de Melancolia, o extraordinário filme de Lars Von Trier, um dos mais importantes, a meu ver, dos últimos anos. O planeta Melancolia entrou em rota de colisão com a Terra e só resta esperar pelo fim. Um filme terrível, forte ao juntar a morte da alma (a melancolia) à destruição física do planeta e de toda vida que nele se encontra. 

Doenças são bem reais. Produzem prejuízos, sofrimento, mortes. Mas são também metáforas de um tempo. O nosso já encontrou a sua. 

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