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À Margem do Lixo

Luiz Zanin Oricchio

04 de novembro de 2011 | 16h28

À Margem do Lixo, de Evaldo Mocarzel, é um filme abertamente político. Isso significa que, ao falar dos catadores de material reciclado em São Paul, vai além da denúncia social sobre um grupo de desassistidos e tenta articular seu discurso ao conjunto mais amplo das relações de poder. Por exemplo, numa das intervenções, um catador afirma que não estava escrito em seu DNA que ele iria ganhar a vida apanhando os restos da sociedade; e que também não está escrito no sangue de um “burguês” que ele iria ser rico e morar numa mansão.

A declaração é estratégica, pois nega o naturalismo da divisão entre ricos e pobres e afirma que esta se dá por razões históricas e culturais. Ou seja, contingentes. Na simplicidade do depoimento é a negativa sobre o que já se chamou de “ordem natural das coisas” que está em em foco.
O discurso não se dá no vazio; enraíza-se num tempo histórico determinado. Em outra ocasião, um dos personagens faz o elogio do governo Lula (então em plena vigência), de acordo com ele “o único que recebeu gente como eu em palácio e ouviu o que tínhamos a dizer.” O homem não diz que é lulista, ou petista, ou de esquerda, ou social-democrata. Apenas que foi ouvido, o que é uma grande coisa para ele.

Além dos depoimentos importantes, há um momento cinematográfico de relevância, porque, sendo esteticamente belo, não cai no vazio formalista, mas propõe significados precisos. Evocando o cinema soviético, e o de Dziga Vertov em particular, as imagens expõem o percurso do material a ser reciclado na fábrica até que se ele transforme em bobinas de papel, prontas a serem utilizadas na indústria. A sequencia é alucinante, tanto visual quanto auditivamente.

Nela está a ideia geral do filme: mostrar os protagonistas da reciclagem, os catadores, como a ponta explorada de um grande negócio, que gera bilhões de reais. É um pouco como lançar o olhar ao interior do mecanismo de funcionamento da sociedade. Esse mecanismo que às vezes se manifesta sob a alternância das figuras da miséria e da opulência, ou dos discursos queixosos ou demagógicos. O cinema, quando bom, vislumbra a estrutura profunda.

(Caderno 2)

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