As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

A máquina de fabricar emoções

Luiz Zanin Oricchio

07 Fevereiro 2007 | 09h52

Amigos, como alguns de vocês sabem, escrevo às terças-feiras, no Caderno de Esportes do Estadão, uma coluna sobre futebol. Passo a transcrevê-la aqui, um dia após a publicação no jornal. Para quem gosta do assunto, é mais um materialzinho para ler. Quem não gosta, é só ignorar. Vai aí a primeira.

Previsível, mas foi preciso acontecer o primeiro clássico para que tivéssemos futebol de nível no Campeonato Paulista. Previsível porque, mesmo com as grandes equipes depauperadas, é nelas que se encontram os poucos bons jogadores em atividade no País. Previsível também porque esse resto de qualidade desperta com a rivalidade ancestral de times que começaram a jogar no início dos tempos. Palmeiras e Santos, os dois grandes times paulistas dos anos 60, e que se enfrentam desde 1915, fizeram um clássico digno de futebol pentacampeão do mundo.

Foi, com sobras, o melhor jogo da temporada até agora. Seis gols numa partida cheia de nuances, alternativas táticas, boas jogadas individuais. Alguns personagens também se destacaram, positiva ou negativamente. Edmundo, tantas vezes dado como carta fora do baralho, inclusive (e talvez principalmente) por palmeirenses, jogou um magnífico primeiro tempo. Do outro lado, o também veterano Antonio Carlos não foi bem. Ambos haviam atuado juntos, no Palmeiras da Parmalat. Durante o jogo, Edmundo, malandramente, conseguiu cavar, em cima de Antonio Carlos, o pênalti que quase dá a vitória para o seu time. Dois grandes atores do jogo.

Enfim, o futebol em seu conjunto saiu ganhando com esse encontro no Parque Antártica. Nele, houve lances bonitos, jogadas polêmicas, alternância de domínio das equipes. Enfim, tudo isso de que é feito um desses jogos que não se esgotam em seus 90 minutos e são discutidos e rediscutidos pelos botequins da vida. Quando perguntavam a José Lins do Rego o que ele, escritor importante, ia fazer no estádio, respondia: ‘Divertir-me, digo a uns. Viver, digo a outros. E sofrer…’ O futebol é um dispositivo inventado para provocar emoções.

A TRISTEZA DO FUTEBOL

E esse dispositivo não funciona sem a paixão dos torcedores. Sem ela, não haveria o sentimento agônico que faz o coração parecer sair pela boca nos momentos mais tensos de uma partida. Nem esse sofrimento atroz transformado em euforia no gol e na vitória. Nem a depressão da derrota. Imagine uma torcida burocrática, que vai a um estádio somente para ver uma partida bem jogada cujo resultado lhe é indiferente. Um tédio, não?

Mas, provavelmente, sem a paixão tribal dos torcedores também não existiriam as cenas deprimentes vistas nas imediações do Parque Antártica, em Nova Lima e na Itália, onde a briga entre torcidas do Palermo e do Catania causou a morte de um policial de 38 anos.

Ninguém sabe direito como enfrentar a violência ligada ao futebol. Tolerância zero? Estádios com apenas uma das torcidas? Câmeras de vigilância? Leis draconianas? Fim das torcidas organizadas?

Bem, essas brigas sempre existiram. Há registros de um formidável quebra-quebra nos anos 20 num jogo entre paulistas e cariocas. Até mocinhas participaram da depredação do antigo Parque Antártica. Hoje é pior. Um detalhe chama a atenção nas cenas do conflito de domingo antes do clássico: um dos brigões tira sua maquininha fotográfica digital do bolso e registra o quebra-pau. Era a lembrança que ele queria levar daquele jogo e provavelmente iria repassá-la para os amigos pela internet. Vivemos na época da imagem e os egos desses idiotas se alimentam (também) da visibilidade que ganham com atos anti-sociais.